Há 40 anos, uma experiência desenvolvida em Londrina durante 90 dias, num período de seca e frio intensos que coincidia com a crise social no Norte do Estado, serviu para mostrar que através da mobilização e organização social é possível alcançar bons resultados no combate à fome.
Comandada pelo educador, pastor presbiteriano e ex-deputado estadual, Zaqueu de Melo (1914-1979), a União Fraternal Brasileira (UFB) envolveu quase 150 voluntários e 24 entidades assistenciais

Londrina, agosto de 2003. Moradores de bairros periféricos começam a descobrir se os cupons do Programa Fome Zero serão eficientes para tirá-los da miséria absoluta.
No esforço, que começa em Brasília e acaba em cada um dos comitês, funcionários remunerados organizam a burocracia enquanto os comerciantes preparam seus estoques. É a profissionalização da tarefa de espantar a miséria, o principal mal do País.
A meta do programa é atingir 24 mil famílias em Londrina, levá-las ao supermercado, ajudá-las com uma compra de R$ 50,00, conceder-lhes o direito de escolher como gastar esta quantia.
Londrina, agosto de 1963. Um grupo de 144 voluntários recebe uma notícia com tristeza: a experiência da União Fraternal Brasileira (UFB) está encerrada. Comandada pelo educador, pastor presbiteriano e ex-deputado estadual, Zaqueu de Melo (1914-1979), a UFB envolveu jovens, adultos, comerciantes e a colaboração de 24 entidades assistenciais. O mutirão antimiséria durou exatamente 90 dias, de 13 de maio a 13 de agosto.
O contigente havia sido dividido em 12 grupos de 12 integrantes. O quartel-general da UFB ficava localizado onde hoje está instalado o Centro Universitário Filadélfia (Unifil). O projeto chamava atenção pela organização. Contava com um estoque de alimentos, roupas e remédios. Os 12 subgrupos eram divididos em sete frentes: o centro de triagem, higiene, atendimento médico, atendimento hospitalar, emprego, alimentação e moradia.
Muitos atendidos conseguiram bem mais do que um banho, comida e uma consulta médica. Como todos eram entrevistados com o objetivo de conhecer suas aptidões profissionais, alguns conseguiam um emprego com apoio de empresários comovidos com a campanha.
O empresário Abílio Wolff Júnior, 61 anos, é uma das memórias vivas deste episódio que, praticamente, a história da cidade se esquece de contar. Ele lembra com grande orgulho de participar do grupo que angariava os alimentos preparados diariamente e servidos nas 600 refeições diárias, além do Sopão da Fraternidade, servido com sobras de feiras livres e açougues, ação que também visava estimular o combate ao desperdício. ''Levantava às 5 horas da manhã. Era com grande satisfação que a gente percorria açougues, padaria, secos e molhados. A gente carregava uma caminhonete rapidamente. Todo mundo ajudava'', lembra Wolff, na época um escriturário da Companhia Cacique de Café Solúvel.
Antes de saírem a campo, os voluntários da UFB passaram por uma espécie de doutrinação. Por três meses, eles frequentaram o teatro do Colégio Londrinense todas as noites. As ''aulas'' começavam às 19h30 e incluíam instruções práticas e teóricas, um preparativo para o ''front'' que viria pela frente.
No comando, Zaqueu usava seus conhecimentos de filosofia de maneira ''clara e didática'', segundo Wolff, para mexer com os brios da maioria jovem. ''Desde o início, a UFB foi considerada uma idéia brilhante. Ficávamos ansiosos para começar logo a fase prática'', conta.
Zaqueu insistia durante as aulas que a idéia da UFB não era ser mais uma entidade assistencial, o objetivo era demonstrar, na prática, que era possível acabar com a miséria através de um esquema de mobilização organizado. ''No final, ficamos atônitos, gostaríamos de ter continuado com tudo aquilo, mas ele (Zaqueu) nos convenceu que tínhamos sido bem sucedidos e que havíamos cumprido nosso papel'', recorda.
Alguns voluntários mais afoitos o procuraram. De acordo com Wolff, foi então que ele disse: ''Pelo menos deixamos a nossa marca. Não fizemos para dar certo, mas para mostrar que pode dar certo''. E completou o educador: ''Se fosse dada continuidade ao trabalho, seria apenas mais um entre tantos esforços.''
Ex-deputado (um ano antes, ele havia renunciado a sua cadeira na Assembléia Legislativa com um célebre discurso, uma peça de desencanto com o mundo do poder), Zaqueu era um dos defensores mais ardorosos do Imposto Social (IS), tributo municipal específico para combater a então crescente pobreza urbana. Ele acredita que a fórmula usada pela UFB poderia ser financiada pela arrecadação do IS e que poderia ser gerida com a supervisão de representantes das comunidades.
Período de seca e frio intensos, a fase de trabalho de campo da UFB coincidia com uma crise social no Norte do Estado, cuja consequência mais dramática era o repique do êxodo rural.
De uma forma ou de outra, a ''capital'' da região era o ponto de convergência dos desempregados rurais. Uma parte se animava a tentar um emprego, especialmente na construção civil. Mas outra, sem perspectiva, errava pela cidade pedindo esmolas. O cenário motivou o slogan: ''Não dê esmola, encaminhe o pedinte à União Fraternal Brasileira''.
A idéia era incentivar o indivíduo a batalhar por ocupação e renda fixa. A viúva de Zaqueu, Isaura Marra Mello, 83 anos, ressalta que, apesar disso, seu marido sempre foi um homem altruísta. ''Ele comprava um sapato e já pensava em doar o usado, que ainda estava nos pés'', exemplifica.
Wolff recorda que a cidade aceitou os princípios da campanha e o número de pedintes (expressão que Zaqueu preferia a mendigo) diminuiu muito. ''Não havia mais clima em Londrina para pedir esmola'', analisa.
Rapazes e moças da UFB não eram admirados por todos. A Guerra Fria vivia seu auge e a bipolaridade ideológica fez com que grupos de esquerda hostilizassem ''a campanha de jovens burgueses''.
''Havia uma peça de madeira grande em forma de panela, instalada em frente ao antigo prédio do Hotel Monções, onde hoje é o Calçadão. Era o símbolo do sopão que a gente servia e da própria UFB. Certa vez, a panela amanheceu virada no chão'', conta Wolff. O fato poderia estar relacionado, de acordo com a mémoria do ex-voluntário, a um mal entendido. Quando o ''caldeirão'' foi instalado, um dos voluntários da UFB teria esbarrado em uma réplica em madeira de uma torre de prospecção de petróleo, um marco da campanha cívica de conteúdo nacionalista o Petróleo é Nosso que uniu às esquerdas. Avariar o caldeirão, portanto, seria uma vingança contra ''os reacionários'' da UFB.
Militantes de direita também consideravam a iniciativa ''comunista'' por seu caráter solidário. ''Ficamos no meio da polêmica sem nos importarmos'', recorda o empresário. Wolff lembra que Zaqueu pregava a ''coerência política'' e ''que o político tinha que ser uma extensão do povo. E que o povo tinha que se organizar para exigir isso''.

Reprodução da foto do educador, pastor presbiteriano e ex-deputado estadual, Zaqueu de Melo, idealizador da União Fraternal Brasileira (UFB); ao lado, a viúva Isaura Marra Melo. Ela lembra que a família recusou homenagens póstumas como batismo de logradouros sem importância da cidade

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