Um muro separando Brasil e Paraguai?
Causou perplexidade a notícia de que o governo federal quer construir um muro de mil e quinhentos metros ao longo da fronteira Brasil-Paraguai, algo como a extensão de Londrina ao Uruguai. O início da construção estaria previsto para este mês, com o final já anunciado para julho. Muitas coisas estão sem explicação nesse inusitado projeto. Ou seja, como se decidiu isto tão rapidamente, tratando-se de obra estratégica e tão dispendiosa; qual a garantia de funcionalidade, que é conter o contrabando; quanto será gasto nesse empreendimento; como transpor rios; e como concluir uma obra destas em 3 meses. Prefere-se acreditar que esse anúncio foi um gracejo, mas é certo que partiu de fonte oficial.
Trata-se de uma muralha de 3 metros de altura, com uma tela circular no alto (semelhante à dos presídios), para impedir a passagem de pessoas e mercadorias. O projeto não menciona, mas obviamente visaria também impedir a entrada de drogas e armas. Desde eras remotas o homem constrói muros de proteção, ou em torno de cidades, ou separando uma das outras, ou isolando países por terra. Este que agora se projeta seria mais um, mas pela surpresa do fato - anunciado sem uma prévia discussão ampla - não se pode aquilatar até que ponto o sistema teria eficiência, imaginando-se que os agentes do contrabando e do narcotráfico, juntando-se a núcleos de corrupção no âmbito da própria fiscalização, irão buscar formas de transpor esse obstáculo, por ora ainda imaginário.
Seria necessária reforçada vigilância em toda essa extensa área, a um custo inimaginável e sem a certeza de eficiência, porque bastaria uma simples escada para transpor o muro, com tela e tudo. Talvez saia mais elevado o custo do que o benefício, levando-se em conta justamente a precariedade de uma tal barreira, que poderia, ao contrário, facilitar esconderijos, porque do lado paraguaio não há interesse em conter o comércio ilegal de mercadorias com o Brasil. Este é um dos sustentáculos econômicos do vizinho país. Mil e quinhentos metros de muro são uma enorme distância, e com esse material se construiria um grande volume de casas populares.
A presença dessa muralha - ser vier mesmo a ser construída e prestando ou não um bom serviço - seria um permanente indicador de separatismo, embora sem afetar as boas relações entre os dois países. Só a prática diria se um obstáculo desses diminuiria o contrabando e a passagem das drogas e armamentos. Seria necessário um gigantesco batalhão de homens e equipamentos, com veículos e a abertura de estradas de acesso e mais os caminhos de locomoção ao longo da área murada. Supondo-se dois homens equipados com veículo e armas a cada cinco quilômetros e somando-se três turnos, seriam 900 no total. É difícil aos cidadãos - os custeadores de mirabolâncias como essa - não colocar pontos de interrogação diante desse surpreendente anúncio.





