Clonagem é o grande assunto do momento e não poderia ser diferente, pois é o mais importante de todos. É verdade que já vai sumindo na imprensa, misturado com os acontecimentos do dia-a-dia estampados em manchetes que prometem leitura sobre escândalos e desgraças. Assim logo terá caído no esquecimento, diluído na opinião pública alimentada hoje em dia, fundamentalmente, pela televisão. O fato porém da maioria desconhecer ou esquecer o tema não quer dizer que ele tenha deixado de existir. Desse modo, enquanto a humanidade prossegue no seu cotidiano, que sob diversas formas consiste basicamente em procriar e sobreviver, um grupo de cientistas continua brincando de Deus nos seus laboratórios, e o que era antes ficção vai se tornando realidade.
Aliás, pode-se dizer que o século 20 foi o século dos grande avanços materiais desenvolvidos através da tecnologia. Isso incluiu desde a descoberta da energia nuclear até os progressos da moderna medicina apta a fazer diagnósticos com mais precisão, cirurgias mais rápidas e com menor risco, transplantes de órgãos cada vez mais sofisticados. Progride também a conquista espacial, e o homem se torna capaz de caminhar no espaço entre as estrelas para consertar seu imenso telescópio, olho da terra mirando o universo. Enquanto isso, os meios de comunicação eletrônicos apequenam o mundo transformando a noção de espaço, e os computadores se tornam o marco de transposição de uma era.
Sim, houve um estupendo e acelerado progresso material. Mas se isso é maravilhoso, pode-se dizer que não houve no mesmo ritmo avanços intelectuais. Comparativamente a séculos anteriores, foram produzidas menos obras literárias de qualidade, o mesmo se repetindo nas artes plásticas e na música. Quanto às ciências humanas, quase nada foi acrescentado ao que se produziu no século passado.
Em síntese, pode-se dizer que a humanidade se banalizou nesse século XX, e se acomodou a partir de certas facilidades trazidas pelas invenções tecnológicas. E à medida que ocorreu um processo de massificação advindo da produção em série de bens de consumo, o qual franqueou o acesso a esses bens pela massa, surgiu o início de uma clonagem social, digamos assim, pois todos se tornaram menos desiguais. Explicando melhor, estabeleceu-se um padrão de comportamento mundial com tendências homogêneas nunca havidas. Essas tendências foram reforçadas ainda mais pela propaganda indutora do consumo e aceleradas pelos meios de comunicação. Assim, a música dos jovens, para dar um exemplo, se tornou uma linguagem universal compreendida em qualquer parte do planeta. Simultaneamente, o lazer se padronizou. Todo mundo come hamburguer e bebe coca-cola e, se duvidar, joga boliche.
Fica ao mesmo tempo evidente em tudo isso, apesar das diferenças entre classes sociais, existentes sobretudo em países do Terceiro Mundo, que ocorreu uma certa democratização para a humanidade. Ao contrário do que se diz, ou se lamuria, mesmo as classes mais baixas, se comparadas com o passado, têm hoje mais acesso ao consumo e ao conforto gerado pelo progresso tecnológico. E essa ‘‘igualização’’, diga-se de passagem, não foi gerada pelo socialismo que existiu durante algum tempo em algumas sociedades, mas teve sua origem no capitalismo nascido com a Revolução Industrial.
Agora o homem foi mais longe do que quando desceu na lua. Sente-se capaz de bancar Deus, e quer reproduzir cópias de si mesmo por mais que os cientistas neguem que pretendam isto. A questão, contudo, é por demais séria e controversa. Ela envolve uma profunda indagação, que para além de análises e suposições sociológicas, obriga a assumir uma posição clara sobre o materialismo ou a transcedência humana pregada por todas as religiões com relação a uma alma imortal. Essa indagação pode assim ser colocada: pode o homem a vida criar ou apenas manipular vida?
Para os que acreditam que não passamos de um corpo que um dia findará para sempre, o homem pode tomar o lugar de Deus e criar vida, entendida no estrito aspecto físico. Para os que crêem na imortalidade, o homem pode apenas manipular células, mas jamais insuflar num corpo uma alma, a verdadeira vida que anima tudo que existe, e que no ser humano se aperfeiçou. Isso é tarefa de Deus, que fez de nós seres individuais apesar de pertencermos ao conjunto da humanidade e da vida como um todo.
A crer nessa segunda hipótese, clones seriam uma cópia física, mas jamais psíquica de outra criatura. Nesse ponto, não avançariam muito as semelhanças que já existem entre todos os indivíduos. Portanto, a clonagem que já é feita em animais com o objetivo sinistro de utilizar o clone para experiências, transplantes de órgãos, etc., no homem provavelmente atenderia mais a fins sinistros do que edificantes, por mais que se acene com progressos científicos através de tal experimento. É precio entender que somos semelhantes mas não iguais, e que a quebra das leis naturais só pode produzir aberrações num mundo novo nada admirável.

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