Quando Faraday, Marconi e Hertz se deslumbraram nos estudos e efeitos das ondas eletromagnéticas, com certeza não imaginaram metade do uso que as gerações subsequentes fariam do fenômeno. As transmissões de rádio e TV são hoje todas baseadas na difusão dessas ondas. Sob o ponto de vista tecnológico, elas possibilitaram ao homem a consciência quase plena de se viver imerso como um morango no grande bolo global. Mas, sob os pontos de vista psicológico e político, os efeitos da radiodifusão carecem de estudos mais detalhados.
Em 1931, Aldous Huxley trouxe à luz a sua concepção de futuro no livro ‘‘Admirável Mundo Novo’’ - nome inspirado num verso do Ato V, de ‘‘A Tempestade’’, de Shakespeare: O brave new world, that has such people in’t!. Um mundo de felicidade quase plena, sem religião, sem Deus, sem pais - as crianças eram decantadas em grandes tubos de ensaio e ‘‘preparadas’’ para cumprir seus destinos a partir da manipulação físico-química de seus nutrientes. Enfim, um mundo perfeitamente em ordem, onde as atribulações do espírito eram serenadas com uma droga chamada de ‘‘Soma’’, uma espécie de mistura dos medicamentos hoje conhecidos como Prozac e Viagra.
Neste mundo do futuro imaginado por Huxley, cada ser tinha sua função social bem definida. As pessoas eram identificadas pela cor da roupa e classificadas de acordo com o grau de inteligência com as letras do alfabeto grego. Assim, existiam os alfas, os betas etc. Na manipulação química, ainda no berçários de embriões, os futuros seres humanos recebiam doses de álcool no sangue e o suprimento de oxigênio no cérebro era controlado. Os alfas evidentemente eram bem tratados, pois a eles estava designada a tarefa de dirigir os que foram imbecilizados para desenvolver tarefas braçais ou que exigiam pouca inteligência. Desta forma, garantia-se uma pequena classe dirigente e um grande exército de semi-imbecis, especializado em sua atribuição servil e sempre disposto a consumir. Desde o berço, todos eram condicionados para a comunidade, identidade, estabilidade. E durante a vida, o rádio e a TV eram usados na propaganda destes ideais e serviam para lembrar o condicionamento recebido. Afinal, imbecis, drogados e condicionados não se revoltam contra o status quo.
Admirável Huxley!, que nos anos 30 conseguiu prever o quanto estamos perto do seu nada admirável mundo novo. Neste finalzinho de século, último suspiro do milênio, podemos verificar que os meios rádio e TV cumprem seus papéis ao carregarem em suas ondas hertzianas instrumentos condicionantes e alienantes das massas.
Das formas que se tem para dominar a humanidade, seguramente é a propaganda que mais se desenvolveu nestes últimos anos. Foi com a propaganda que os bolcheviques conquistaram a Rússia, e usando apenas panfletos e discursos em praças públicas. Foi com a propaganda que o nazismo e o fascismo ganharam os povos na primeira metade deste século. Os meios foram o rádio e o cinema. É com a propaganda que a sociedade de consumo atinge seu ápice e nos faz engolir ácido fosfórico num refrigerante que ninguém sabe o que é, mas que todos são induzidos a gostar desde a infância. É com a propaganda que ditadores, usurpadores e enganadores do povo se mantém no poder.
É a propaganda deste final de século que massifica e imbeciliza. É a propaganda que banaliza a miséria, a fome e fabrica um homem sem reação e totalmente servil. É a propaganda, que repetida mil vezes faz de uma mentira uma verdade. Segundo Huxley, ‘‘os maiores triunfos da propaganda não se deveram à ação, mas sim a omissão de algum ato. A verdade é grande, mas é maior ainda, do ponto de vista prático, o silêncio sobre a verdade’’.
É Huxley. Triste mundo este, nada admirável, em que os homens estão condenados a ser escravos de meia-dúzia de vivaldinos e pior, condicionados a ter amor à servidão.

mockup