Gustavo Martins, 10 anos, está na 5 série do ensino fundamental. Ele vai para a escola de manhã. À tarde, faz inglês às quartas e sextas-feiras, futebol às terças e quintas. O tempo livre ele divide entre os jogos no computador, desenhos na televisão e os passeios de bicicleta pelas ruas do bairro de classe média onde mora com a família. Vida típica de criança brasileira.
Na mesma região da cidade, zona norte, mora Alisson Alves Batista. Ele não sabe quantos anos tem. Alisson vai para a escola à tarde. As manhãs do menino são todas iguais, soltando pipa no meio do lixo, na invasão onde mora com a família. Alisson nunca mexeu num computador. A vizinhança está cheia de crianças do tamanho dele mas faz tempo que eles não jogam futebol. ''A gente está sem bola'', conta o menino, sem graça. Ele revela que, se pudesse, queria tocar violão. ''Eu acho bonito. Queria saber tocar mas minha mãe não tem dinheiro para comprar um'', ele comenta.
A mãe de Alisson tem outros 5 filhos. A mais velha, 12 anos, estuda de manhã e sonha com aulas de informática. Em vez disso, trabalha como babá e ganha R$ 20,00 por mês. Assim como todos os outros moradores da invasão Nossa Senhora da Aparecida, a família sobrevive catando lixo reciclável. Nas ruas de terra Giovani, 7 anos, empurra Drielli, de 4, num velho triciclo. O sonho dele não é uma bicicleta nova: ''Queria ter aula de inglês.''
Vanderléia, 7 anos, diz que ajuda a mãe em casa e já sabe fritar batata-doce. ''A coisa que eu mais queria aprender é tocar piano. Nunca tive aula de música mas eu adoro cantar'', revela. A mãe dela, Rosimeire Araújo, tem outras preocupações. Desde o ano passado ela tenta uma vaga na creche para a filha Laila, 2 anos. ''É uma dificuldade, tem um monte de criança na fila. Estou desistindo, vou ter que procurar em outro bairro'', lamenta.
Projetos culturais para crianças existem, tanto na iniciativa privada como públicos. Várias empresas oferecem cursos de informática, música e profissionalizantes. A prefeitura tem 14 oficinas que atendem 1400 crianças. A Rede da Cidadania também ensina dança, capoeira, hip hop, teatro e até literatura. Infelizmente, não há projetos nem vagas suficientes para todas as crianças da cidade.
Não existe Secretaria da Criança em Londrina. Para a Secretária de Assistência Social, Maria Luiza Rizotti, a explicação é política. ''A criança é prioridade em todas as políticas sociais da nossa administração. Na minha maneira de ver, isso qualifica as políticas porque faz com que todas reconheçam a criança como prioridade'', afirma.
A secretária calcula que existem pelo menos 50 mil crianças e adolescentes pobres em Londrina. Destes, apenas 15 mil estariam inseridos em projetos sócio-educativos. ''A gente investiu muito, se dedicou muito, mas os serviços não cresceram o suficiente com relação à demanda'', admite. Para ela, é preciso haver uma ''mobilização social em torno da criança''. A Secretaria tem cadastradas 71 mil pessoas em situação de pobreza em Londrina; 43 mil, ou seja, menos da metade, estão sendo atendidas em projetos sociais.
Nas ruas, a quantidade de crianças pedindo dinheiro diminuiu. Dados do projeto Sinal Verde apontam uma redução de 150% num período de 1 ano. Foram 240 abordagens em 2001 contra 109 no ano passado. Para Maria Luíza, um dos motivos é a inclusão de crianças em projetos sociais. Em 2001 havia 700 crianças cadastradas em projetos; em 2002 o número aumentou para mil e este ano já são 1400. Apesar disso, nas grandes avenidas como a Tiradentes, ainda é comum ver crianças nos semáforos, esperando o sinal vermelho para abordar os motoristas.
''Eu tenho claro que nós não vamos acabar com esse problema nem dar conta da demanda das crianças carentes. O problema da criança não é problema para ser resolvido por nenhum poder público. É um problema de todos os cidadãos. O brasileiro precisa crescer em termos de cidadania e começar a ver todas as crianças como nossas. Todos somos responsáveis'', conclui.

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