Um momento triunfante da imoralidade
Seria superestimar o Conselho de Ética do Senado pensar-se que não votaria pela absolvição do presidente da Casa, José Sarney. Desgastar-se com avaliações acerca de mais essa vergonha é algo ocioso e repetitivo de tudo o que se tem dito sobre a qualidade de políticos que ocupam cargos decisórios da República. Os 3 votos petistas, por ordem expressa do presidente Lula, foram decisivos para somar o placar de 9 contra 6 (dos 15 membros do Conselho), e assim o senador acusado sai triunfante.
Não era o que a nação desejava mas, pela analogia do que vinha ocorrendo, era o que já se sabia que iria acontecer. Do episódio resultam algumas verdades: que Lula é que tem poder sobre os seus pares no PT (ressalvados alguns ainda providos de decência); que o líder Aloísio Mercadante (PT-SP) não tem liderança; que o presidente do PT, Ricardo Berzoini, pouco decide; que não existe ética no Conselho de Ética; que o ideário histórico do partido foi pelo ralo e que, definitivamente, nem o presidente da República tem respeito pela opinião pública.
Lula não sabe respirar sem o balão de oxigênio do PMDB, onde estão Sarney movendo os cordéis no Senado, Michel Temer na retaguarda da Câmara Federal e todos os demais do staff peemedebista dando sustentação ao Governo - obviamente que mediante contrapartidas que não são novidade para ninguém. O PMDB concede, mas cobra. E nada ou pouco faz por espírito público, mas por conveniência. O que ocorre não é propriamente uma apreciação de Lula por Sarney (conveniente e poderoso aliado), mas o temor de que sem ele no comando do Senado o cargo caia nas mãos do PSDB, que é oposição e ocupa a 1 vice-presidência da Casa. É fácil e cômodo negociar com o velho político, sabidamente um líder, pela sua maestria em saber articular e saber dar e receber. (Na votação do Conselho também foi absolvido o senador tucano Arthur Virgílio, do Amazonas).
O senador petista paranaense Flávio Arns já anuncia o propósito de deixar o partido, dependendo de como se manifeste a Justiça Eleitoral quanto à perda ou não do mandato; e a senadora Marina Silva (PT-AC) já está com um pé no Partido Verde, também desencantada com as mudanças ideológicas do PT (onde militou durante 30 anos) e também porque o ''companheiro'' Luiz Inácio Lula da Silva nunca a prestigiou como ministra do Meio Ambiente. E mais, pelo aceno (embora ela não o admita como fator fundamental) para candidatar-se à Presidência da República.
Atesta-se que o PT consubstancia-se hoje no presidente Lula (o lulismo tomando o lugar do petismo), porque como partido não decide, porém sem perder a serventia. Porque obedece, como obedeceu agora à voz de comando do grande chefe. A absolvição de José Sarney é um triste momento de triunfo da imoralidade.





