Se a reprovação da continuidade da CPMF se afigura, em princípio, como uma derrota do Governo, é mais que isto uma vitória do Brasil. Porque os contribuintes se livram de uma carga tributária e a economia nacional passa a contar, a partir de 1º de janeiro, com um volume de dinheiro que ficará em poder do povo. Com a estimativa de R$ 40 bilhões anuais na conta desse tributo, incidente sobre as operações financeiras, serão R$ 3,3 bilhões mensais que deixarão de ser remetidos para o cofre do Governo e ingressarão no meio circulante, fazendo seu giro e dinamizando a economia. Por extensão, essa dinâmica gerará impostos sadios, originados de mais negócios, e o próprio Governo ganhará a sua parte.
Dois acontecimentos políticos se associaram, nos últimos dias, gerando um certo clima de paz e de vitória da democracia, no seio do já desesperançado povo: a derrota das pretensões de Hugo Chávez, na Venezuela, ante a iminência de instalar-se naquele país uma ditadura com reflexos continentais, e agora a vitória da democracia brasileira com o episódio de ontem no Senado. O presidente Lula e seus monetaristas deverão ter entendido que precisam baixar a crista, porque a arrogância e a prepotência deles já começava a causar incômodo.
O ministro Guido Mantega, sobretudo, chegou a fazer a ameaça de criar mais impostos para compensar uma possível perda da receita da CPMF, e ainda ontem - depois de conhecido o resultado da votação - insinuou que o setor de atendimento à saúde será prejudicado. Um ímpeto do momento, porque a prudência recomenda a readequação das contas, sem irritações e impulsos ditatoriais. Não foi a mesma posição do presidente Lula, que reagiu mais mansamente. Seria de sugerir que se o ministro da Fazenda não se ambientar à nova situação a partir de 2008, resta-lhe o recurso de afastar-se. Porque o novo ano orçamentário exigirá competência gerencial para tocar o país com menos dinheiro.
Em face do acontecimento histórico de ontem no Senado, o orçamento da União para o ano novo provavelmente só será aprovado em fevereiro, e até lá, mesmo com o recesso e com o período pouco produtivo do período, haverá tempo de sobra para refazer cálculos. Senadores da oposição, que votaram contra a prorrogação do imposto, salientaram que o Governo precisa, doravante, diminuir seu gasto com os exageros, sem prejudicar investimentos. Isto será possível - pela União, Estados e municípios, também dependentes da CPMF destinada à saúde - bastando acabar com a exorbitância da farra pública. Será uma boa oportunidade não para punir o povo cortando nos atendimentos sociais, mas assumir atitudes de responsabilidade e cidadania e readequar a aplicação do dinheiro público, que mesmo sem CPMF continuará abundante no cofre do Tesouro.

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