Domingo de sol e aquela preguiça vadia que só nos permite ler revistas. Passo os olhos por sobre as principais notícias da semana. Lamentável. Um paquidérmico escândalo no caso das fitas do BNDES. A história da paradisíaca conta do presidente Fernando Henrique & Cia no Caribe. O Congresso que não consegue formar uma CPI para analisar o assunto. Um megaempréstimo brasileiro junto ao FMI. Ocupação de terra. Ovos de dinossauros na Argentina. Final de campeonato. Torcedor invade o campo. Uma nova visita à MPB: Carlos Lyra, Ciro Monteiro, Jobim e João Gilberto - 40 anos desafinados, é um recorde! - Fernando Pessoa relançado. Bacalhau mais caro. Chuva de meteoros. Bill Clinton. Saddam Hussein. Mônica chupa cebolinha. Washington pra lá de Bagdá. Desempregado & Desemprego. Padre cantor. Unha encravada. Espinha no nariz. Leite de magnésia. E óleo de fígado de bacalhau.
‘‘É o fim do mundo’’ grita o missionário evangélico na esquina. Lair Ribeiro faz coro e lança ‘‘Mil dicas práticas para se obter sucesso no Apocalipse’’. Paulo Coelho aproveita a deixa e descobre um caminho menos íngreme para o inferno - na compra do livro, o leitor ganha um mapa e um refrigerador portátil.
Alá, meu bom Alá! A mesmice é universal e está institucionalizada neste final de século! Se ao menos as coisas fossem um pouco menos previsíveis: Tonico Virabrequim, desempregado, ex-mecânico-ajustador da Volks, consegue um empréstimo junto ao FMI - gordo por sinal, que não corresponde ao perfil do Tonico, que de gordo só tem o olho que lhe botaram em cima.
Agora cheio de fundos, a fundo perdido junto com o já sem fundo estômago, nosso Tonico Virabrequim almoça ovos com bacalhau assistindo a um tango argentino. Satisfeito, ele parte de férias para as Ilhas Cayman.
No avião, o som de fundo é ‘‘O Pato’’, no quém-quém-quém de João Gilberto. Já no paraíso fiscal, depois de meditar horas no pato que nunca comera e que sempre fora, Tonico Virabrequim bate um papo com um sem-terra que está ali para fazer tratamento de saúde, num spa especializado em unha encrava. O sem-terra, conhecido somente pelo apelido de Rastelo, conta que invadiu o campo depois que seu time foi consagrado campeão: aos 45 minutos do segundo tempo, gol do Sobrenatural de Almeida - soberbo jogador, que vagueia pelos times brasileiros desde os tempos em que o Fluminense de Nelson Rodrigues estava na primeirona. Ao pé do ouvido, Rastelo segredou a Tonico: ‘‘Se meu time não fosse campeão, nóis fazia a revolução’’.
Mais tarde, o dono de um grande laboratório farmacêutico desaconselha Virabrequim a investir nas Bolsas. ‘‘Não, não, não, é a crise internacional’’, justifica. ‘‘Melhor você arrumar um companheiro e formar a dupla Desemprego & Desempregado. Cantar na Xuxa, contar a sua história no Faustão e de quebra dar uma passadinha no Ratinho. Sucesso em 24 horas. E não ligue para as críticas da CUT, porque você sabe que a inveja é uma m...’
Nosso Tonico Virabrequim não se continha com a súbita felicidade. Mas... (na vida do povão sempre aparece esta conjunção seguida de uma longa vírgula colocada ali para tropeços e desgraças). Mas um meteoro, único que conseguiu passar por inteiro pela atmosfera terrestre, foi cair justo na cabeça do Tonico, que naquela hora descansava na praia. Nem mesmo os céus aceitam o impossível: um trabalhador brasileiro feliz.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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