Os que atacaram Nova York e Washington também provocaram um medo generalizado e representaram uma ameaça para as bases da segurança humana global. O medo, seja como resultado da crueldade, da violência ou da doença, abala a confiança entre as pessoas, e entre grupos e comunidades, que necessitam funcionar juntos. Também abala a segurança e a previsibilidade de que todos necessitamos para crescer, desenvolver e prosperar. Abala nossa crença de que as pessoas são boas e não más, uma crença que é essencial se queremos dar um significado ao que fazemos. Além disso, o medo limita nossa liberdade para nos unir a outros para melhorar nossas sociedades.
Os ataques terroristas, as situações de conflitos armados e todos os tipos de catástrofes afetam nossas capacidades para esclarecê-los, compreendê-los. É importante que saibamos que a maioria das pessoas, tanto as diretamente expostas àquelas situações quanto os observadores distantes, vêem-se afetados por uma tragédia como a do ataque.
Há poucos dias, o secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Tommy Thompson, falou sobre a crescente incidência da síndrome pós-traumática do 11 de setembro em diante. Disse que isso requer ''o aumento da assistência e dos serviços de saúde mental em todo o país e muito mais verba''. De fato, o bem-estar mental das pessoas se vê ameaçado por traumas, medos, estigmas e incertezas.
Nesse contexto, nossa comunidade global está sendo submetida a provas como nunca. Podem as nações continuar trabalhando juntas para enfrentar os grandes problemas que afetam o futuro da humanidade? Elas podem sustentar o impulso para a liberdade e a democracia de modo que todos os povos possam viver e crescer juntos? Podem seus dirigentes controlar as forças que provocam o terror e, além disso, promover os valores humanos? Podemos manter a campanha contra a pobreza no mundo?
Sabemos que os países precisam fortalecer sua capacidade para responder às consequências do uso de agentes biológicos ou químicos como armas. Devemos nos preparar para a possibilidade de as pessoas serem deliberadamente prejudicadas por meio de agentes biológicos ou químicos. Todo uso de agentes como o antraz ou a varíola deveria ser contido por meio de uma resposta efetiva dos serviços de saúde pública. São vitais uma vigilância apropriada e uma rápida resposta coordenada. Todo tipo de agentes infecciosos ou tóxicos químicos pode, em teoria, ser preparado para seu uso deliberado como armas. Os especialistas acreditam que a varíola, o antraz, o botulismo e a peste são os agentes patogênicos que com mais probabilidade seriam utilizados nesse caso.
Entretanto, esses focos de enfermidades surgidos natural ou deliberadamente, podem ser detectados rapidamente por meio da Rede Global de Alerta e Respostas diante de Epidemias. Este sistema, que está integrado por 72 redes de laboratórios, especialistas em saúde e sistemas de informação via Internet, em nível mundial e regional, controla continuamente os informes e os rumores sobre situações de enfermidades no mundo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) coordena e supervisiona regularmente respostas aos focos epidêmicos, tal como uma recente epidemia do vírus ebola em Uganda, outra de febre amarela em curso na Costa do Marfim e focos de cólera, peste e outras infecções em diferentes partes do mundo. Conforme o mundo tem a capacidade e a experiência necessárias para controlar sérios focos de doenças, deveriam ser fortalecidos os planos nacionais para eventuais emergências sanitárias, em especial em países onde são raras as epidemias de doenças infecciosas.
Todos nós somos parte de uma vasta comunidade global que trabalha por um mundo livre do sofrimento e do medo. Sabemos que a boa saúde e um cuidado sanitário acessível a todos são vitais para a paz e a segurança. Trabalhamos conjuntamente pelo bem comum, buscando os melhores caminhos para reduzir a distância existente em matéria de saúde. Quando enfrentamos dificuldades econômicas e sempre mutantes prioridades mundiais, nos sentimos inspirados pelo conhecimento do que pode e deve ser obtido nesse sentido.
- GRO HARLEM BRUNDTLAND é ex-primeira-ministra da Noruega e diretora-geral da OMS em Genebra (IPS)

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