Um mal subestimado
A descoberta da segunda caixa-preta do avião da companhia alemã Germanwings, que caiu nos Alpes franceses em 24 de março, traz mais evidências de que o copiloto Andreas Lubitz derrubou deliberadamente o Airbus. Cento e cinquenta pessoas morreram no acidente. Além das informações da caixa-preta, policiais que investigam o caso recolheram provas que Lubitz, de 27 anos, já tinha passado por tratamento para depressão e transtorno de ansiedade generalizado. Na última quinta-feira, promotores alemães revelaram que encontraram em um tablet, na casa do copiloto, pesquisas que ele fez na internet sobre formas de cometer suicídio.
A queda do avião da Germanwings reacendeu discussões sobre as consequências de transtornos como depressão e ansiedade no ambiente de trabalho. O tema também é debatido na reportagem de hoje desta FOLHA. Conforme levantamento da Previdência Social, os chamados transtornos mentais e comportamentais foram a terceira causa de concessão de auxílio-doença em 2013, ficando atrás apenas das lesões, envenenamentos e outras consequências de causas externas e as chamadas doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo.
A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou que 7,6% (11,2 milhões) das pessoas de 18 anos ou mais de idade receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental. Entre os brasileiros que referiram diagnóstico, 11,8% disseram possuir grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais por causa da doença. Os moradores do Sul do Brasil são os mais deprimidos, conforme apontou o estudo do IBGE.
Apesar do grande número de brasileiros que sofrem de depressão, a doença ainda não é bem conhecida, nem facilmente diagnosticada e aceita. A reportagem mostra o drama de uma funcionária de uma multinacional que esconde a doença dos chefes e dos colegas por medo de discriminação ou de demissão. Lembrando que em muitos casos os transtornos mentais podem ter sido motivados pelo próprio ambiente profissional.
A partir dos indícios que Lubitz derrubou intencionalmente o Airbus, autoridades da área de segurança aérea já estão reavaliando os processos de avaliação física e psicológica de seus funcionários. Mas ainda é pouco. É preciso que a saúde direcione esforços para tirar a depressão da condição de uma doença subestimada, lembrando quanto sofrimento esse mal silencioso causa aos pacientes, familiares e sociedade.





