Um lugar no mundo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de abril de 2003
Pires Laranjeira 
Importa bastante o lugar onde vivemos. É o nosso território, o espaço a que estamos habituados. Conhecemos melhor os seus limites do que outros. Nele, convivemos com os amigos, conhecidos, colegas, companheiros e evitamos os que nos desagradam. Os familiares fazem parte dos afetos. A geografia social e a terra marcam o nosso estilo, o modo como vemos o mundo, os nossos limites e aspirações.
Com a informação de que dispomos alargamos os nossos horizontes, mas ela pode também algemar a liberdade, se for propaganda da alienação, do engano e do acessório, se for publicidade. O mundo é demasiado vasto para pensarmos apenas no nosso umbigo, na pracinha do bairro ou nos olhos doces da vizinha do lado.
Vivemos de opiniões, de senso comum, de mitos e de idéias feitas, que não nos atrevemos a questionar, porque isso dá trabalho e implica ter acesso a saberes que nos são furtados. O amor próprio, o egoísmo, o desconhecimento, o egocentrismo e o não querer ousar novidades leva-nos à satisfação ou insatisfação com o que temos, somos ou queremos.
Poucos se atreverão a pensar que Coimbra não é a ''cidade dos doutores'', nem a cidade mitificada por gerações de brasileiros que se habituaram a ver os seus melhores filhos, desde o poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa ao professor gaúcho Guilhermino César, a nela estudar ou ensinar, ajudando a torná-la uma referência no seu encantado imaginário.
Mas a Coimbra do cotidiano e a Coimbra estudantil, ambas íntimas, porque a cidade não ultrapassa os 110 mil habitantes, não é o que os brasileiros (nem os portugueses) costumam pensar. É uma cidade de face seca e desconfiada, agreste, de inoperância e imobilismo, de autocontentamento e mitificação presumida. Qualquer cidade brasileira, por mais pequena, carenciada e sofrida, é bem mais alegre, convivial e emotiva, com ''sangue'' emocional e potencialidades, do que a cinzenta, apagada e estática Coimbra.
Todos têm o seu lugar no mundo e qualquer lugar no mundo possui os seus incondicionais, mas não há nada de mais livre e compensador do que gostar do lugar dos outros, procurando sempre enxergar os defeitos do nosso. O ideal seria ser fã de todos os lugares do mundo: mas como, se a maioria nem sequer sabe a que tem direito?
PIRES LARANJEIRA é professor da Universidade de Coimbra, em Portugal


