A presença da maranhense Roseana Sarney no horário político da televisão não causou enjôos; ao contrário, ela seduziu com seu charme os brasileiros, elevando às alturas o seu ibope na disputa pela Presidência da República, a ponto de guindá-la a um imaginário segundo turno com Lula. Mas se a massa votante encantou-se pela figura feminina de Roseana e pela sua indiscutível inteligência e simpatia, não deve iludir-se com seu canto de sereia, porque ela traz o estigma de originar-se das oligarquias que dominam o Nordeste brasileiro e o infelicitam há dezenas de anos. No caso específico dela, muito especialmente por pertencer a um feudo maranhense de desastrada gestão pública.
Os Sarney são sinônimo de miséria para o povo que governaram e ainda governam. E não apenas eles, mas toda uma dinastia que vem flagelando o já seco e infortunado Nordeste. A governadora Roseana ᖠfilha do governador Sarney, do presidente Sarney, do senador Sarney, enfim do velho cacique Sarney –, pai e ela só mantiveram o Maranhão em estado de pobreza e atraso. E dinheiro nunca faltou, porém dissipou-se no mesmo sumidouro das águas.
Há quase quarenta anos aquele Estado é dominado por um sistema oligárquico que coloca o Maranhão no último lugar em desenvolvimento humano, em comparação com as restantes unidades da Federação. É o Estado onde a maioria da população recebe meio salário mínimo e onde 39% das moradias não têm sequer banheiro e sanitário. O serviço de esgotos é precário, com os resíduos lançados em fossas, valas, rios, lagos e o próprio mar. Também inexiste coleta de lixo satisfatória.
Todas as praias do Maranhão são poluídas e impera uma situação de decadência e miséria, no melhor estilo dos tempos dos senhores de engenho. Não há boas estradas e a pobreza está espalhada em toda parte. Só os Sarney e os membros da oligarquia estão ricos. Em 1965, um ano após a implantação da ditadura militar, José Sarney assumiu o governo do Estado, e a partir daí sucederam-se no poder nove amigos e correligionários de Sarney: Pedro Neiva de Santana, João Castelo Ribeiro, Oswaldo Nunes Freire, Luiz Rocha, Epitácio Cafeteira, João Alberto, Edison Lobão e finalmente Roseana Sarney, a filha – está já no segundo mandato. Nada menos de 38 anos de mando.á
Tempo, pois, não faltou, nem dinheiro e nem políticos sintonizados, sem desavenças a atrapalhar a administração pública. Nem a Assembléia Legislativa incomodou, ao longo desses anos, mas tudo funcionou dentro da melhor harmonia do compadrismo. Não será, portanto, pela via de Roseana Sarney presidente da República que o Brasil irá avançar, assim como o Maranhão não avançou, mas ao contrário, miserabilizou-se. O charme e a eloquência de Roseana, demonstrados nos bem elaborados programas políticos da tevê, escondem uma tradição de má administração pública dela própria e de todo o seu clã.
Com toda certeza, então, nenhuma modernização emanará do Maranhão. Porque já se viu que poder contínuo e sem oposição, abundância de dinheiro – canalizado para atender ao programa contra as secas e que nunca funcionou – e nem charme feminino, fizeram escola de bem administrar na outrora Atenas Brasileira. Portanto, a experiência maranhense não constitui modelo que vá servir para o Brasil moderno e globalizado que os novos templos reclamam. Roseana presidente irá fazer o que lhe determinarem o feudo familiar e o seu séquito. Ela não conseguirá se livrar dessa herança que carrega, se é que realmente deseje livrar-se.

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