Um grande espetáculo
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terça-feira, 01 de outubro de 2002
Rubens Pileggi Sá 
A campanha para a eleição dos novos governantes para o País, estados, além dos senadores e deputados federais e estaduais vai chegando ao fim de sua primeira etapa. Disputado cada voto a unhas e dentes, nunca se viu tanto dinheiro esparramado para seduzir e conquistar eleitores. Os discursos pouco se diferenciam, como se isso fosse uma solução mágica para o problema da miséria e da injustiça social. Pura retórica. Porque o problema não é a falta de indústrias para produzir bens de consumo para a população, nem de terras para se plantar alimentos, nem falta de escolas ou moradia para se ocupar.
O problema é que o meio ambiente tem sido vítima da poluição, do efeito estufa, do desequilíbrio ambiental, das catástrofes climáticas e mesmo as estações do ano já não são mais regulares. O planeta se aquece por causa da agressão que vem sofrendo nesta época de evolução tecnológica acelerada. Acabam-se as florestas, as geleiras nos pólos derretem-se e daí que quanto mais se diz que o problema é a falta de empregos, mais a poluição se multiplica. Na rua, um rapaz dizia ao outro que não sabia em quem votar e este respondeu que já sabia em quem não votar: ''Basta ver quem está desperdiçando dinheiro jogando papel no chão e emporcalhando a cidade''.
O fato é que a eleição está mais para espetáculo do que para politizar o eleitor. O torturante som dos alto-falantes nos carros dos cabos eleitorais, os recursos e efeitos televisivos, showmícios, a maquiagem toda que ainda usam para a compra descarada de votos, faixas, cartazes, bandeiras. A estratégia é vender uma imagem pelo preço de um voto. Depois adeus, só daqui a quatro anos. Em nossa sociedade de espetáculo o negócio é vender bens de serviços e produtos de consumo.
É sintomático que o acontecimento político se pareça com um show. Com um grande espetáculo circense, artístico. Atentos, muitos dos próprios artistas, hoje, resistem em ver sua arte como mercadoria, como produto de consumo para a sociedade mercantilista. Procuram criar mecanismos e estratégias que contrariem a idéia de produto, obra, autoria, buscando driblar a própria noção de arte enquanto possibilidade comercial.
Tudo isso é muito complexo, principalmente porque se trata de saber como, então, sobreviver em uma sociedade que prega justamente o contrário disso. Os mais atentos não se deixam enganar pela esperança de se tornar artistas oficiais de plantão. E a maioria dos próprios artistas financia e investe em seu próprio trabalho, essa é a realidade.
Quem tem ganhado até agora sobre as obras artísticas são sempre outras pessoas do circuito, menos os artistas. Alguns se contentam até em aparecer só para ''divulgar'' e mostrar o que fazem, para engordar currículo. Iludem-se em pensar que, por ter participado de tal ou qual evento são melhores, ou estão acima uns dos outros, quando, na verdade, são usados para alimentar a mesma máquina que produz político safado e corrupto.
O que se coloca então, tanto para a questão da política, quanto da arte - em nosso caso da política da arte - é se vale continuar com os mesmos discursos que sempre acabam se transformando em moeda de troca para o jogo do poder e a manutenção das coisas tais como continuamos a viver por séculos. Ou se a questão é estrutural. E, assim, partir para outro tipo de relação e modos de enfrentar a realidade, abandonando inclusive estatutos como o da política e da arte e suas instituições.
A arte contemporânea pode e deve ir nesta direção. Uma arte que não se acomode a espaços institucionalizados e com regras preestabelecidas. E nem mesmo acomodada em definições preconcebidas do que seja arte, ou, menos ainda, arte contemporânea. Afinal, se é contemporânea, ela está se fazendo o tempo todo. Enfim, trata-se muito mais de resistir do que aceitar o peso de estruturas que não irão mudar se não rompermos com elas.
Assim é na política, também. Somos obrigados a votar e devemos fazê-lo. Mas acreditar que a situação mude a partir dos modelos impostos, apenas alterando as figuras do poder, é se esquecer que a conjuntura toda passa pela questão planetária e isso depende da ação e do compromisso de cada um com a mudança, o tempo todo. E não do abrir e fechar das cortinas do grande espetáculo que somos obrigados a assistir.
RUBENS PILLEGI SÁ é artista plástico e colunista da Folha 2


