Semana passada, segunda-feira, o prefeito de Bocaiúva do Sul, situada a 30 Km de Curitiba, proibiu por ‘‘decreto’’ a venda de preservativos e anticoncepcionais na cidade. O objetivo, segundo o tal prefeito, era de promover o aumento da densidade demográfica para aumentar, também, o percentual da cidade no Fundo de Participação dos Municípios. A medida ainda veio acompanhada de um discurso de estímulo à construção de motéis, e do anúncio de que Bocaiúva iria se transformar na ‘‘Cidade do Amor’’.
Tudo poderia acabar por aí mesmo, numa simples piada - aliás, tão ruim e arranjada que jamais entraria no rol do anedotário político (feito de deslizes espontâneos). Porém, a pretensa medida administrativa causou uma repercussão importante, do ponto de vida do espaço conquistado na mídia. Não só o fato ocupou a primeira página dos jornais de circulação regional, durante vários dias, e dos jornais de circulação nacional (como a ‘‘Folha de S. Paulo’’), mas também foi noticiado no horário nobre dos grandes telejornais.
O malsinado decreto, datilografado pelo próprio prefeito, nem sequer foi publicado no Diário Oficial, requisito indispensável à moralidade e eficácia dos atos administrativos. No entanto, os veículos de comunicação, de um modo geral, realçaram mais os ‘‘efeitos práticos’’ do malsinado ‘‘decreto’’. Donos de farmácia foram entrevistados e filmados, repórteres ouviram depoimentos dos cidadãos, o prefeito, inúmeras vezes falou, sisudo e determinado, a emissoras de rádio e TV. Sexta-feira, finalmente ele disse que tudo não passava de uma ‘‘brincadeira’’.
Cheguei a ouvir jornalista experiente, professor de jornalismo, reconhecendo o valor de marketing no lance de Bocaiúva. Ora, ora. Felizmente, o Luiz Geraldo Mazza manifestou-se no sentido de preservar o território da imprensa como local inadequado a esse tipo de bazófia.
É o velho álibi dos publicitários que se julgam gênios. Se o trabalho realmente comunicar a idéia, atingiu a sua finalidade; se, ao contrário, causar escândalo, polêmica, eles dizem que o resultado pretendido era esse mesmo, o de que as pessoas falassem sobre o assunto. Exemplo clássico dessa pasmaceira foi a campanha contra a Aids que deu o nome de Bráulio ao pênis do protagonista da propaganda. A grande maioria da população reagiu negativamente (os Bráulios do Brasil inteiro foram unânimes). Daí, os responsáveis pelo projeto, num discurso cara-de-pau vieram dizer que o objetivo do trabalho era justamente gerar polêmica!
Gerar polêmica é facílimo. A receita mais antiga - ainda infalível - é a de andar na rua pelado com uma melancia pendurada no pescoço. Não dá outra. Fotos, entrevistas, filmagens, microfones e, claro, prisão em flagrante (tudo bem, o importante é ter mandado o recado ao ar).
No caso de Bocaiúva do Sul, a piada foi de extremo mau-gosto. Primeiro, porque atingiu rasteiramente, vulgarizando, o mais elementar dos direitos individuais, a mais elementar das liberdades públicas; segundo, porque abusou de um cargo público para disseminar uma determinação que, se fosse séria, poderia causar dano às pessoas. Exagero? Exagero é pensar que ninguém, ninguém, deixou de levar a brincadeira na brincadeira.
Depois, esse golpe de marketing lasseou mais um pouco as freios redibitórios que nos garantem a idoneidade da imprensa. Se o prefeito de Bocaiúva for muito festejado, muito cortejado, terá inaugurado mais um expediente de banalização da crônica política. A imprensa ficará à mercê de ser usada como instrumento de manobra, como parte de uma jogada de quem quiser apenas aparecer. E os usuários da imprensa, assim como os cidadãos de Bocaiúva do Sul ficarão um pouco mais acostumados a serem feitos de bobo, legitimando uma atitude que deveria, no mínimo, ser considerada indecorosa - com as consequências legais cabíveis.
Esse estilo marketeiro de o político lidar com a imprensa lembra o então governador Roberto Requião, que, através de um decreto de mentirinha - mas usando papel timbrado com o brasão do Estado do Paraná (Decreto nº 1582, de 21/08/92) - transformou o dia 1º de abril na data-base do nascimento dos deputados que propuseram e votaram o Decreto Legislativo nº 003/92 (que reimplantou a data-base do funcionalismo). A bazófia de Requião estampada na primeira página dos jornais, e ninguém deu bola, nem a imprensa, nem os próprios deputados. Dali a pouco, o Diário Oficial do Estado estava publicando, indevidamente, press-release governista (vide D.O. do dia 12/11/92). Ninguém deu bola para o abuso. Era ‘‘brincadeirinha’’.
De brincadeirinha em brincadeirinha, os abusos vão sendo valorizados, considerados normais, deslustrando a credibilidade da imprensa - quando o que esse tipo de oportunismo merece, na verdade, é ser varrido fora.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.

mockup