Um ''flerte'' com a oposição - Miguel Ignatios
Um flerte com a oposição
Miguel Ignatios
Os recentes pacotes baixados pelo governo (excetuando as medidas da reunião da última sexta-feira, com os governadores), o primeiro para compensar o prejuízo de R$ 2,4 bilhões em consequência da negativa do Supremo em taxar servidores aposentados; e o segundo para criar a bolha de consumo natalino, dão a entender que os estrategistas palacianos iniciaram discreto flerte com a oposição. Se a iniciativa terá futuro, transformando-se em namoro ou, ao contrário, se permanecer apenas no terreno das intenções, só o tempo dirá.
De qualquer forma, vale a pena chamar a atenção do leitor para três medidas incluídas nos pacotes. A primeira e mais importante delas foi o aumento da taxação da remessa de lucros para o Exterior. A oposição (da mais radical do tipo PC do B até o PDT, de Garotinho; passando pelo PPS, de Marcos Freire e Ciro Gomes; e pelo PT, de Lula e José Dirceu) sempre a defendeu em bloco como uma espécie de panacéia para todos os males. Embora de forma tímida, o governo atendeu aos apelos oposicionistas e com isso recebeu elogios inesperados do deputado e líder petista na Câmara, José Genoino.
A segunda medida para agradar à oposição foi mais sutil. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, quase pedindo desculpas por, mais uma vez, mandar a conta do ajuste para o setor produtivo, declarou que o novo arrocho para arrecadar R$ 1,2 bilhão (os outros R$ 1,2 bilhão virão será que virão mesmo? dos cortes no orçamento do próximo ano) será suspenso assim que os recursos previstos forem arrecadados. Foi a primeira vez que o governo admitiu publicamente que a iniciativa privada, a classe média e os operários estão bancando as injustas aposentadorias do funcionalismo público.
Caberá, portanto, aos partidos políticos que dizem representar o setor produtivo, a classe média e os trabalhadores exigir do governo que aquilo que hoje é vendido à opinião pública como provisório não acabe por se transformar em permanente. Haja vista a CPMF.
A terceira e última medida veio escondida dentro do segundo pacote. Impossibilitado de continuar a forçar a queda dos juros básicos dos atuais 19% ao ano (três vezes mais do que a média cobrada nos países desenvolvidos), o governo, na prática, estimulou empresários e consumidores a fiscalizar as taxas de juros cobradas pelos bancos para desconto de duplicatas, compras a prazo, crédito pessoal, cheque especial, cartões de crédito etc.
Só para refrescar a memória do leitor, recordo aqui as duas últimas vezes que algo semelhante aconteceu: durante o Plano Cruzado, em que todos, de repente, viraram fiscais do Sarney; e, na curta experiência parlamentarista de João Goulart, quando o então ministro da Fazenda, San Thiago Dantas, conclamou a população a boicotar as compras. Não compre que o preço baixa, esse era o slogan da época. Agora, só faltou o governo dizer não tome emprestado que o juro baixa.
Mas qual terá sido o motivo do súbito entendimento entre governo e oposição? É que as hostes palacianas detectaram inesperadas simpatias de várias agremiações políticas oposicionistas em relação às recentes iniciativas destinadas a tentar acabar com alguns dos muitos privilégios nas aposentadorias dos servidores públicos. Por tal motivo, o Planalto fez concessões com a finalidade de criar um clima de cordialidade com a oposição.
Antes disso, a aproximação já havia sido iniciada graças ao crescente interesse do governo pela proposta do deputado petista, Eduardo Jorge, que prevê a implantação de um regime previdenciário único.
Se, de fato, ao longo do próximo ano, o governo quiser retomar o crescimento, terá de encontrar soluções satisfatórias para duas questões cruciais: tapar os ralos por onde escoam os recursos da União, dos Estados e dos municípios; e baixar os juros para patamares mais aceitáveis, em torno de 10% ao ano.
Para obter sucesso nesses dois desafios, o governo não pode prescindir do apoio da oposição. Os primeiros passos nesse sentido já foram dados na reunião em que o presidente FHC abriu o diálogo com os governadores.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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