Agora que as luzes da ribalta da Copa do Mundo se apagaram, faz-se mister manter na penumbra uma luz, ainda que ténue. Falo de um farol que ilumina o Atlântico a cerca de 800 kms a oeste da costa africana. Um aglomerado de dez ilhas vulcânicas descobertas e colonizadas pelos portugueses no século XV. 450 mil habitantes em 4000 kms2. Independente de Portugal desde 1975, é um dos países mais estáveis e prósperos da África, embora sem grandes recursos. A beleza das suas praias e sua gente refletem-se hoje num turismo atraente e em ascensão. Contudo, esse singelo e humilde farol do Mindelo ofuscou os estádios por onde a sua seleção passou. Nenhum americano, minimamente atento às coisas da bola, esquecerá este nome: Cabo Verde! Mais concretamente o seu goleiro, Vozinha!

Cabo Verde inverte a lógica perversa do atual futebol regado a rios de dinheiro e glamour, envolvendo riquezas estratosféricas, jatinhos e mansões. O mundo onde rola a bola em sofisticados gramados, dentro de espetaculares estádios, é pequeno demais para caber a garra, a determinação e o entusiasmo de uma seleção oriunda de um músculo país, com estas caraterísticas. Cabo Verde é o campeão moral da Copa, como foi chamado!

Espanha e Argentina conheceram de perto (bem de perto) o ímpeto de uma nação que chegava aos EUA, não deslumbrada, mas assanhada e com muita vontade de vencer! Tanto uma seleção quanto a outra, não conseguiu vencer os ilhéus africanos no tempo regulamentar dos noventa minutos! Isso não é pouca coisa! Outrossim, assistir o Vozinha segurar os tiros dos maiores craques do mundo e manter o seu espaço invicto, salvou nossas tardes e noites futebolísticas! Foram quatro partidas disputadas e nenhuma derrota no tempo regulamentar!

O empate nestas circunstâncias é sempre uma baita de uma vitória! E foram quatro empates! Um deles contra o Uruguai, o que também não é para menosprezar! Cabo Verde levou o seu farol à terra do tio Sam. Na escuridão que cobre o país atualmente, ali fez-se luz! Cabo-verdianos espalhados pela diáspora, alimentaram o seu ego e a autoestima, com legítimo orgulho. Temos que tirar o chapéu a quem dribla a ginga ortodoxa do atual futebol profissional e baila com desenvoltura sob o sol escaldante do verão americano. Desinibidos, comandados por um ilustre desconhecido técnico – o Bubista – os jogadores exibiram uma exímia dança coletiva movida por alma gigante. Uma alma maior que o corpo, alguém teria dito!

Espetáculos assim, como a Copa do Mundo, necessitam de um tom, um ritmo, um farol! Os milhões de dólares envolvidos não o enobrecem! Bem pelo contrário! São rios de dinheiro que circulam dentro e fora dos gramados, denegrindo o esporte que arrasta multidões e gerando uma legítima desconfiança na estética que nos é apresentada. Cabo Verde, por sua vez, correu pela lateral e marcou um dos mais belos e inesquecíveis gols da história. Salvou o desafio! Devolveu o brilho e a cor ao futebol e emancipou o seu arquipélago ao respeitável grupo dos times que vale a pena ver jogar!

Estive uma vez em Cabo Verde, no Mindelo. As outras oportunidades em que os meus passos pisaram esse solo sagrado, foi na periferia de Lisboa, um reduto onde vive uma grande e animada comunidade dos seus habitantes. Quem os conhece, talvez não se tenha surpreendido tanto com a sua inédita e brilhante participação na Copa. Cabo Verde não foi aos states a passeio! Ou melhor: Cabo-verdianos não vieram ao mundo a passeio!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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