Um falso paraíso - Fernando José Dias da Silva
Um falso paraíso
Fernando José Dias da SilvaTem gente que se derrete quando ouve falar nos Estados Unidos. O Paraíso na Terra. O sistema perfeito. O modelo a ser seguido. Os de cima citam a excelência das instituições, a revisão modernizada das regras, o apogeu da democracia, das estruturas capitalistas adaptadas para o terceiro milênio. Os do meio gostam mesmo do hambúrguer, do tênis, do moletom de cores vivas e dos aparelhos eletrônicos. Não é preciso ir aos EUA, basta chegar a Miami que já está bom, uma delícia.
Os de baixo apenas escutam embasbacados sobre as maravilhas daquele país tão bom. Ah! A América. Mais chato do que só pensar na América dos sonhos só mesmo o contrário. Não é o caso de ser antiamericano. É bobagem. Mas toda a rasgação de seda em cima do nosso grande país-irmão dá para desconfiar.
A melhor saída é procurar saber o que os norte-americanos pensam deles mesmos. E agora há uma ótima oportunidade para isso com a publicação em português do livro de Richard Sennett, A Corrosão do Caráter - Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo. O autor é sociólogo de nomeada. Escreveu também O Declínio do Homem Público, best seller no setor. Nesse novo livro, Senett derruba a idéia de que nos Estados Unidos a questão do emprego está resolvida como apregoam determinadas figurinhas com mais do que segundas intenções.
Não que ele seja um saudosista das velhas formas de trabalho, da linha de montagem, do fordismo, do taylorismo. Ele acha apenas que toda essa flexibilidade no emprego e nas maneiras de produção provocam o título do livro - a corrosão do caráter das pessoas, porque não há destino partilhado.
Com o trabalho temporário, a grande competição, as pessoas tendo que buscar mais de um emprego, a falta de laços mais fortes no local de trabalho, as relações assépticas entre as chefias e os subordinados e entre as chefias e seus superiores, só pode acontecer uma coisa. Só pode surgir uma pergunta que é fatal. Quem precisa de mim? Sendo que a resposta é mais dramática ainda, porque ela não existe.
O pronome mais perigoso nesse sistema, segundo Sennet, é nós. Há o enfraquecimento das identidades sociais democráticas - profissionais, ideológicas, políticas, culturais - que provoca a apologia da não dependência, da resolução individual dos problemas. O pontapé no próximo é estimulado, pois no capitalismo flexível está incutida a idéia de que ninguém deve nada a ninguém.
O ataque ao Estado assistencial, a destruição das redes assistenciais e dos direitos é por sua vez justificada como para libertar a economia política, como se os parasitas puxassem para baixo os membros mais dinâmicos da sociedade.
Para criar esse clima de corrosão do caráter, também contribui muito a questão do fracasso. As reduções e reengenharias impõem às pessoas da classe média tragédias súbitas que nos primeiros tempos do capitalismo ficavam limitadas às classes trabalhadoras. A primeira reação à demissão é um sentimento de traição, de marginalização. Depois, vem a resignação, às vezes, até o desinteresse. O desinteresse por tudo. Esses aprendem na pele que não existe mais carreira. Não existe mais longo prazo.
Segundo os dados disponíveis, qualquer um que seja demitido e consiga nova colocação, perde em média 14% do salário. Nesse processo de perdas continuadas por causa da facilidade em demitir, só existe uma maneira de compensação: acumular empregos. Por isso, a jornada média do trabalhador norte-americano é de 51,5 horas por semana, quando na França se fazem estudos para estipular uma jornada de 36 horas.
O presidente Bill Clinton usou como mote da sua campanha à reeleição o fato de terem sido criados 12 milhões de empregos na década de 90. Só que nessa conta estão incluídos 10 milhões de empregos precários.
Ficou famosa uma piadinha publicada no jornal onde aparece Clinton anunciando na televisão o grande fato. E o telespectador sentado no sofá concorda: É verdade. Só eu tenho quatro empregos.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





