Um falso dilema
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 1997
Roberto Demeterco 
A recente vitória do supercomputador Deep Blue sobre o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, reacendeu o debate sobre a hegemonia da máquina sobre o ser humano. Em meio à polêmica, que ocupou espaços e horários nobres na mídia, fica uma certeza irrefutável: agregando ao seu talento os recursos disponibilizados pela tecnologia de ponta da informática, o ser humano amplia o seu potencial criador e produtivo, encontrando melhores soluções para o cotidiano da vida pessoal e profissional e para adequar os processos de empresariais às exigênciais da frenética economia contemporânea.
Um exemplo disso é a tecnologia da automação comercial, que, incorporando recursos avançados - e cada vez mais baratos - de software e hardware, propiciou verdadeira revolução no relacionamento entre indústrias, distribuidores e varejistas e destes com os consumidores. A automação oferece inúmeras vantagens, como rapidez no atendimento, aumento de confiabilidade nas informações, controle efetivo de todos os itens vendidos e inventário automático dos estoques. Isso, sem falar na redução, em mais de 95%, dos erros no registro da entrada e saída de produtos e na digitação dos preços.
A tecnologia do código de barra e dos leitores ópticos também protagonizou na mídia, quase em paralelo à disputa entre Kasparov e Deep Blue, uma polêmica interessante. Seria ela, a tecnologia do código de barras, a responsável pelos erros que, às vezes, ocorrem na precificação dos produtos expostos nas gôndolas dos supermercados? - questionaram alguns veículos de comunicação. Sem qualquer demérito ao ser humano, pois errar é uma prerrogativa sua, pode-se afirmar, com toda a segurança, que o problema, cada vez mais raro, não é pertinente à tecnologia do código de barras, que tem como único objetivo a identificação do produto no qual está posto. Na realidade, o registro no caixa de um preço diferente do indicado na prateleira, que causa justa reclamação por parte do consumidor, é uma falha operacional na atualização dos valores ou na troca de etiqueta de gôndola.
Essas falhas também acontecem, eventualmente, quando um estabelecimento varejista realiza promoções nas quais a diferença pode ser a menor como a maior. E, na era na globalização, sai na frente quem consegue agregar a qualidade do certo aos bens, produtos e serviços que vende. Assim, os supermercados devem somar à tecnologia da automação um rígido controle de qualidade com relação às bases de dados dos preços, incluindo o cuidado no sentido de que os operadores cumpram com eficiência a função de trocar as etiquetas coletivas nas gôndolas.
O código de barras já existe há 14 anos no País. Nesse período, tem sido uma excelente ferramenta de automação comercial. A EAN BRASIL, entidade multi-setorial e sem fins lucrativos, é a responsável pela administração de sua numeração. Utilizada há mais de 25 anos nos Estados Unidos e Europa, essa tecnologia já está presente em mais de 100 países. O decreto presidencial nº 90.595, de 29/11/84, instituiu no Brasil o Sistema Nacional de Codificação de Produtos, também conhecido como Código de Barras EAN. O sistema proporciona uma linguagem comum entre parceiros comerciais. Cada produto tem único código de identificação, que pode ser usado por todos os estabelecimentos comerciais e dentro da própria indústria, contribuindo para a eficácia no processo de distribuição e comercialização.
O segmento da indústria brasileira que mais utiliza o código de barras em seus produtos é o de alimentos. Na outra ponta da cadeia, cerca de 45% dos maiores supermercados estão automatizados. Nos últimos oito anos, verificou-se significativo aporte de investimentos em automação. Em 1989, existiam apenas duas lojas automatizadas. Em 1996, esse número saltou para 2.165, representando expansão de 1.082 vezes. A previsão para 1997 é de que o número de lojas automatizadas chegue a quatro mil, ou seja, o dobro em relação ao ano passado. Os produtos marcados com código de barras também vêm crescendo rapidamente. De 1989, até 1996, o número de produtos codificados aumentou 78 vezes, saltando de 3.200 para 250 mil. Já em 97, estima-se que aproximadamente 330 mil produtos estejam codificados.
Também é interessante notar que a automação comercial não é um privilégio dos grandes estabelecimentos comerciais, abrangendo número crescente de pequenos varejistas, de todos os segmentos. Esta democratização da tecnologia é viabilizada pelo barateamento paulatino dos equipamentos. O custo médio de um check-out (caixa registradora), em 1989, equivalia a US$ 10 mil; hoje já se encontra um equipamento completo (PDV, programa de controle e caneta óptica) por cerca de US$ 4 mil. Os processos, tanto para quem deseja informatizar, quanto para quem pretende iniciar a marcação do código de barras, não apresentam mais tantas complicações como antigamente, inclusive no preço. Com esses recursos básicos, o pequeno comerciante, de qualquer setor varejista, poderá usufruir de numerosas vantagens que a automação proporciona.
O rápido crescimento da automação reflete-se diretamente na redução das margens de erros, da população ao consumo. Além disso, tornou possível, este ano, a implantação no País da ECR (Efficient Consumer Response - Resposta Eficiente ao Consumidor), um verdadeiro pacto entre indústrias, distribuidores e fornecedores, que eliminará desperdícios, agilizará processos e reduzirá a médio prazo, o preço final dos produtos de consumo de massa. Efetivamente, a correta utilização da tecnologia, mais do que reduzir a incidência de erros, visa, em última instância, melhorar a qualidade de vida do ser humano.


