Antes de prescrever um remédio, todo bom médico faz um exame completo no paciente para atacar a enfermidade com precisão e, a partir de sintomas comparativos, livra-lo da dor que o atormenta. Um bom arquiteto, antes de planejar a futura casa do cliente, faz longas conversas para encontrar idéias que se aproximem do desejo dos futuros moradores do sonhado lar.
Para implementar seu projeto político, também o governante deve antes fazer uma leitura do resultado eleitoral que o projetou na condição de administrador dos impostos do povo que o elegeu e da realidade econômica e social em que está inserido.
No Paraná não tem acontecido assim. Hoje, o povo, desesperançado e traído, tem que sacar suas panelas para se fazer visto e ouvido porque o que tem diante si é um projeto político dissociado de seus interesses, deparando-se com um governo que não o ouve e só o vê pelo retrovisor.
Em dezembro de 2001, numa pesquisa realizada com cidadãos brasileiros sobre seu maior problema atual, 34% dos paranaenses responderam ser o desemprego, taxa só menor que duas outras, numa comparação com os 10 maiores Estados.
Somados aos 12% que disseram ser seu segundo maior problema a fome e a miséria, chega-se quase à metade dos paranaenses, o que é muito grave, assusta e coloca em risco a estabilidade dos que ainda estão fora desse percentual; ou seja, a outra cada vez mais reduzida metade.
Por sua vez, um estudo da Fundação Getúlio Vargas, que analisou o mapa da fome no País, revelou que 21,54% da população paranaense – quase dois milhões de pessoas – vivem em estado de indigência ao possuir renda mensal menor que R$ 72,00. Ficamos distantes, negativamente, dos demais Estados do Sul, de São Paulo e do Rio de Janeiro, ao comparar os mais próximos; mas, perdemos também para Roraima e Rondônia. De que modo um Estado rico como o Paraná convive com essa cruel e inaceitável realidade?
Recentes comerciais televisivos patrocinados pelo governo Lerner dizem que em 2001 foram gerados 73 mil empregos no Paraná que, somados aos 480 mil divulgados na campanha do vencedor de plantão – até agora fez 57 viagens internacionais e, talvez por isso, desconheça a realidade de seus governados – totalizariam 553 mil durante seu quase duplo mandato.
Em recentes estudos sobre a economia paranaense, ao analisar a evolução do nível de emprego no Paraná, o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos) trouxe números extremamente preocupantes e indigestos, que, além de desnudar os dados da propaganda oficial, permitem o desmascaramento daquilo que o atual governo mais faz: tentar que a opinião pública creia existirem dois Paranás: um antes de Lerner e outro depois, como se tudo de bom que existe nele tivesse vindo depois.
Errado. Conforme os dados do Dieese, após sete anos, o governo Lerner não conseguiu ultrapassar o nível de emprego, ascendente antes dele: em novembro de 1994, tínhamos 1.493.733 de carteiras assinadas. Mesmo que fosse verdade que o atual governo tivesse criado os mais de meio milhão de empregos que divulgou a peso de ouro, eles não foram suficientes para superar o mais de meio milhão que ficou desempregado, sem considerar o outro meio milhão que ingressou no mercado de trabalho, no mesmo período.
Há algo de mórbido no reino do Palácio Iguaçu que nem toda a criatividade da equipe que faz a propaganda oficial consegue esconder. Mal-cheira e muito. Os números falam por si.
As pesquisas de opinião, os estudos e os dados da economia revelam que, nos últimos sete anos, a política desenvolvimentista implementada no Paraná não contribuiu para gerar emprego nem para agregar renda, que reduzisse a fome do exército de famintos, nem para trazer à massa da força de trabalho economicamente ativa as formalidades contratuais, na relação entre o trabalho e o capital.
Não adianta mais Lerner tentar ludibriar a opinião pública com peças de propaganda de realizações para uma população excluída e traída por promessas não cumpridas de duas campanhas eleitorais construídas na virtualidade e no imaginário dos sofistas mercenários trazidos do Olimpo, onde reina o deus Capital, para vender um produto supérfluo em troca de gordas e recheadas anchovas azuis.
Se a cegueira e a surdez dos atuais governantes continuam, após estes anos todos, não é agora, já em estado crônico, que elas vão sarar, mesmo porque os remédios estão na mão do povo que, depois de ser olhado por muito tempo pelo retrovisor, resolveu ultrapassá-los.
RASCA RODRIGUES é engenheiro agrônomo, diretor executivo da Fisenge e diretor financeiro do Senge-PR

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