Os atentados terroristas ocorridos, ontem, nos Estados Unidos, constituem a prova mais evidente de que nós, habitantes do chamado Terceiro Mundo, somos iguais a grãos de areia. Ora, se a Nação mais potente, mais segura e mais armada do planeta não consegue formar um cinturão de segurança capaz de prevenir a destruição dos seus mais queridos e festejados ícones e símbolos, imagine-se o que poderá acontecer com os nossos frágeis países. A primeira constatação, portanto, a se fazer, diz respeito à fragilidade do sistema de segurança dos países poderosos. Somos tão graníticos quanto um grão de areia no deserto. Ou tão firmes quanto uma lesma.

A segunda verdade a se apurar do monumental incidente/acidente é esta: estamos vivendo, já, um estado de guerra mundial. Mudou o pólo conceitual em torno dos conflitos mundiais. Não se trata mais de esperar por uma Terceira Guerra Mundial, de natureza eletrônica, desenvolvida com foguetes e ogivas nucleares. A guerra está aí, intestina, invisível, atravessando fronteiras, destruindo, matando, ferindo a sensibilidade e maltratando o orgulho das Nações.

Uma imensa estrutura comandada por um poder invisível, à base de guerrilhas urbanas, atos criminosos dispersos e muita brutalidade, está vencendo as batalhas da diplomacia e a gerência dos grandes projetos de paz. As guerrilhas urbanas matam mais que as guerras clássicas. A violência, inclusive em nosso País, é devastadora. Só para termos uma idéia, morrem, por ano, no Brasil, cerca de 40 mil pessoas, vítimas da violência, quantidade maior que os mortos na Guerra do Vietnã.

A polaridade, que alimentou a guerra fria durante quase meio século, criando tensões entre Norte e Sul, Leste e Oeste, agora se desloca para a questão étnico-cultural e seus antecedentes históricos, fazendo emergir um discurso fundamentalista que passa a encontrar eco não apenas nas devastadas regiões da Ásia e do Oriente Médio mas em territórios do mundo mais desenvolvido.

Uma ''guerra santa'' instala-se no planeta, desenvolvida pela sabotagem, pela onda de suicídios em nome da causa sagrada (quando jovens, embalados por bombas destruidoras, são os próprios instrumentos de chacinas, transformando-se em heróis nacionais com direito a um lugar no paraíso, ao lado do profeta) e, por que não dizer, pela mais sofisticada engrenagem tecnológica, caracterizada pelos sequestros de aviões, por atos violentos em série e táticas de emboscada, numa programação articulada de bastidores e de quartéis-generais impenetráveis.

Como ocorreu nas guerras romanas, de Aníbal, Cipião e César, a estratégia indireta de ações escondidas e surpreendentes está ditando o rumo das guerras modernas. A surpresa, os pequenos comandos, a tática de emboscadas constituem fatores de vitória. Donde surge a comparação inevitável: os mais bem armados reis da humanidade, assentados em tronos cercados de ogivas e foguetes supersônicos, estão sendo vencidos por guerreiros toscos, escondidos em cavernas escuras, de difícil acesso.

Não se pode deixar de constatar, ainda, a precariedade das articulações empreendidas pelas grandes potências para gerenciar as crises do mundo contemporâneo. O que está faltando aos líderes para se chegar a um discurso de consenso? Vontade política, entre outras coisas. A retórica da diplomacia de guerra tem canibalizado as ações práticas. Ou seja, discute-se muito para se fazer pouco ou quase nada. Ao perfil de alguns governantes, falta aquele valor que emoldura os perfis dos grandes líderes: grandeza. A postura radical do presidente norte-americano, George W. Bush, pouco tem contribuído para amenizar o terreno das conversações e aplainar os caminhos da paz.

O que poderá ocorrer, a partir dos monumentais atentados nos Estados Unidos? Retaliação significará mais violência, mais carnificina, mais sangue, mais tensão. Uma atitude conformista por parte das autoridades provocará grande reação popular. O povo norte-americano, que é ligado aos seus símbolos e às tradições mais remotas, certamente vai exigir de seu presidente, uma resposta à altura. Resposta que, dependendo da natureza, poderá agravar o quadro mundial de conflitos.

Estamos atravessando um dos mais graves momentos da geopolítica contemporânea. Podemos dizer que o mundo, desde ontem, jamais será o mesmo. Os Estados Unidos já não são os mesmos de antes de ontem. Na paisagem nova-iorquina, as duas torres do World Trade Center deixarão de ser referência. No coração dos cidadãos do mundo, outras referências e outras significações se abrem. A questão é saber se todas elas convergem para o tão almejado sonho da igualdade, da paz e da justiça.



- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular e consultor político
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