Um espetáculo de dissimulações
Da presente erupção de escândalos, envolvendo figuras públicas e privadas, espera-se, ao menos, que resulte algum saneamento na moral das instituições e que, passada a tempestade, se comece a trilhar por caminhos de mais transparência e honestidade na esfera governamental. Por ora, ninguém dentre os acusados em cuja inocência nenhum brasileiro acredita mostra a fisionomia de quem esteja com vergonha e propensão a pedir desculpas ao povo, como fizeram ao longo da história alguns homens públicos de países politicamente civilizados. Ao contrário, assiste-se ao desfilar de cínicas declarações, como de quem não viu nada, não participou de nada e não sabe de nada. A mesma ausência de caráter que leva homens públicos a tirar proveito próprio no exercício da função confiada pelo povo, manifesta-se quando eles são descobertos pelas falcatruas. Defendem-se e contra-acusam, e certamente esperam que a nação acredite em tanta dissimulação e enganação. Exigem provas, como se a corrupção institucionalizada tivesse um livro documental para registrar os atos de seus personagens. O que desencanta os cidadãos é que todo esse mar de lama se circunscreve ao organismo governamental e ao âmbito de empresas e instituições que tenham negócios e relações com o Poder. Cada qual tentando lavar a roupa suja nesse tanque de águas turvas e de imundície. Já ninguém acredita que haja santos-homens nessa arena. Há uma guerra instalada, também, de instituições contra instituições, como apenas para citar exemplos dos últimos dias a surpreendente operação de busca e apreensão de documentos, por parte da Polícia Federal, à sede da Corregedoria da Receita Federal, em Brasília. Sabe-se que a Corregedoria é um dos setores mais sensíveis do Fisco, porque apura irregularidades praticadas por servidores. Enquanto isto, o titular supremo de um Poder, o presidente da Câmara Federal, ameaça ir à televisão para atacar outro Poder, o Executivo, e afirmar que tudo começou ali. Um deputado federal envolvido em citações diz que vai processar os procuradores da Fazenda. E, na CPI dos Correios, foram capturados dossiês que diretores da Petrobras têm produzido, denunciando-se mutuamente. Tudo acontecendo dentro do mesmo reduto governamental, de onde a nação desejaria ver emergirem grandes fórmulas de soluções nacionais e não tantos escândalos. A desfaçatez já contamina todos os pronunciamentos que emanam desse círculo. As atividades decisórias da máquina funcional estão praticamente paralisadas em Brasília. Já não se exerce governo, porque as atenções estão voltadas para esse festival de vergonhas. Só resta uma remota esperança de que algo efetivamente saneador resulte de todo esse revolvimento de sujeiras.





