Um ensino de luta de classes
O aspecto bom da Escola Nacional do Movimento dos Sem-Terra é o que trata da formação de cidadãos mais conscientes, diferente do que ocorre com a tradicional estrutura educacional básica, já bastante superada em metodologias e em quase tudo o que ensina. Mas sua tendência de seccionar classes e pregar a intolerância contra os ricos é preocupante e não acena com a paz nas relações de trabalho. Fala-se de trabalho porque um dos postulados da escola é a formação de ''firmeza e clareza ideológica comprometidas com a classe trabalhadora''. Porque nada será duradouro, nesse campo, se não houver também um compromisso de bom relacionamento com a classe empresarial, que é a que emprega a massa de trabalhadores. Um segmento não prospera sem o outro. Ambos são pertinentes e afins. Inaugurada no começo deste ano, a Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST situada em área de 30 mil m2 no município de Guararema-SP e sob a regência do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária, do Rio Grande do Sul acaba de formar 60 instrutores em educação rural, que se pode denominar de ativistas, porque certamente não irão ensinar técnicas agronômicas e sim posturas de luta. Está no ideário curricular. Isto não significa um mal se a meta é o despertamento e a conscientização. Mas no centro de cada diploma dos recém-formados está escrito, em destaque, esta palavra de ordem: ''Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres''. Com toda certeza, nem todo rico é intolerante, e a intransigência exacerbada leva a impasses, por impedir o livre diálogo e o entendimento das partes. Na festa de formatura foi cantado o hino da Internacional Socialista, o que demonstra vinculação ideológica com velhos sistemas, pródigos em violência. Só pela conscientização das classes a empregadora, a operária, a rica, a pobre se chegará a avanços nas relações sociais e de trabalho, mas a escola do MST não inova, apenas repete. Lutar por direitos, por bons salários, lutar pela terra, pelo seu sentido produtivo e social e pela sua conservação, é caminho para se alcançar resultados fecundos e duradouros. Mas a escola do Movimento dos Sem-Terra que recebe ajuda federal, tem parceria com 45 universidades públicas brasileiras e foi implantada com recursos financeiros de sindicatos europeus combate o agronegócio. Uma incoerência, porque também o pequeno produtor faz parte dele, ademais o sistema de produção em escala é necessário em país de grande extensão territorial como o Brasil, abre vagas de trabalho, movimenta a economia e gera tributação e receitas de exportação. Isto é de interesse de todos. Se a meta da escola de Guararema é formar ativistas para a explícita luta de classes, no campo, poderá chegar o momento de haver uma só classe, a vencedora. Será então necessário recomeçar tudo de novo, com novas lutas, quando a escola poderia mudar a diretriz para o sentido da integração entre capital e trabalho, entre patrões e empregados, porque estes componentes são irmanados e não podem separar-se. A escola do MST pode ser o embrião de reformas similares, em todo o sistema educacional brasileiro, de modo a, realmente, formar cidadãos conscientes de sua responsabilidade com a pátria. Mas o modelo implantado ainda guarda vírus de intolerância, e este não é um caminho de solução e pode gerar mais intranquilidade no campo.





