Um enfoque equivocado do MST
Não é apenas com relação à reforma agrária que as decisões do Governo federal caminham a ''passos de tartaruga'' palavras, estas últimas, de líderes dos sem-terra proferidas em Londrina durante o 4º Encontro de Fé e Política. No que dependeu da área oficial, neste e nos governos anteriores, tudo andou lento, quando não ocorreu omissão total. Mas poderia caminhar melhor o processo da reforma agrária se as lideranças do Movimento dos Sem Terra buscassem se aliar a uma corrente que não é inimiga, mas parceira no ideal de solucionar a questão agrária: os proprietários rurais. Não tem fundamento o discurso, já do conhecimento público e sempre repetido, de que são os ''grupos econômicos com os quais o presidente Lula tem aliança'' que impedem o avanço da reforma agrária. Depreende-se daí que todo o produtor rural seja um representante de ''grupo econômico'' no sentido pejorativo que o MST lhe dá, e que esse grupo seja contrário a um projeto que assente legalmente os colonos que habitam os acampamentos sob lonas e que ambicionam ter terra e trabalhar nela. Os empresários rurais, na maioria pequenos e médios, e os grandes, só não aceitam que suas terras produtivas sejam invadidas e as instalações depredadas. Na área urbana, nenhum industrial aceitaria que sua fábrica fosse tomada de assalto, e ninguém permite que seus dominíos sejam violentados, porque isso configura ato ilícito. Encontro como o que se realizou em Londrina nos últimos dois dias e ainda não um debate não são condenados por nenhuma pessoa com o uso da razão, e nem os produtores rurais são contra, e participariam se chamados. Porque eles não são adversários de uma reforma agrária estribada em moldes científicos, que se origine não em propriedades produtivas invadidas mas em áreas adquiridas pelo Governo, e propiciando ao assentado toda a assistência logística, para que progrida em seu negócio. As lideranças do empresariado rural poderiam constituir uma força conjunta na luta de sensilibização do Governo para que agilize o processo, mas líderes do MST, como João Pedro Stédile e alguns outros, assim como foi José Raínha, nunca esconderam se ódio pessoal sobre a classe rural. Não se conhece um único caso a não ser esporádicas reações ante invasões que a comunidade que vive do campo manifestou-se alguma vez contra um projeto agrário que abrigasse os sem-terra. Ao contrário, tal solução seria um fator de paz no campo, para todos. O proprietário rural só não aceita, obviamente, que a reforma se faça às suas custas, em cima de sua propriedade produtiva, com tanta terra disponível no Brasil que poderia ser aquirida para o fim do assentamento de milhares de famílias de colonos. Se, como anuncia Stédile, 2005 será um ano de intensificação do movimento que ele lidera, visando agora sensibilizar o Governo não apenas para a reformas agrária mas também para a reforma da política econômica, deverá ele saber que, em luta dessa natureza, conta com o apoio do povo e especialmente dos produtores rurais, mas que terá repúdio na mesma intensidade se violentar propriedade alheia. O MST tem de reformar-se e redirecionar a visão distorcida de que o ''poder econômico'' e os homens do campo sejam contra reformas, especialmente a agrária que os toca diretamente e fazer desse segmento um aliado, simplesmente porque não há ali inimigos. Não haveria razão para isso, ante o contrário. O MST que, segundo demonstra, confunde defesa da propriedade com posição anti-reformas deveria buscar converter em parceiros os que imagina serem adversários, e afinal conscientizar-se de que perde simpatia e se enfraquece quando deriva para a violência e não se concentra em propostas bem elaboradas para a reforma agrária. Ocorre que, pela invasão, afasta seus iguais que estão estabelecidos e que tiram da terra o seu sustento, proporcionam empregos e produzem, de forma honesta e ordeira.





