Ao tomar posse em abril, o ministro do Trabalho, Edward Amadeo, surgiu como promessa de oxigênio em área do governo marcada pela falta de boas idéias e ação. Àquela altura parecia lamentável a possibilidade de que Amadeo - um acadêmico extremamente respeitado - fosse cumprir mandato-tampão e dispusesse de pouco tempo para cumprir sua missão.
Nesses quatro meses, Amadeo mostrou que realmente é superior, em idéias e ação, a Paulo Paiva, seu antecessor. Mas, pela importância que o assunto emprego (ou desemprego) tem, o ministro ainda parece pouco à vontade e inseguro na função que lhe reservaram.
Esse jeito desengonçado deve-se provavelmente à falta de costume com o novo papel. Além da universidade e dos debates de televisão, o ministro frequentava até quatro meses atrás reuniões com sindicalistas, e também com autoridades governamentais, a quem fornecia estudos e propostas.
Como ministro, as responsabilidades são maiores. E a natureza política de cada ato torna complexa a administração dos projetos. Além disso, Amadeo tem que lidar com a pressão usual para dar declarações e depois sustentá-las, na qualidade de membro do primeiro escalão de um governo que enfrenta críticas ao seu desempenho na área social.
Do ponto de vista das declarações, o ministro tem se embaraçado. Ainda não adquiriu a manha dos políticos que generalizam para esconder e constroem frases de efeito para iludir. Mas já não pode falar livremente como intelectual. Falta encontrar o tom, equilibrando exigências políticas e técnicas. Chegou dizendo que não havia crise no emprego. Logo se deparou com uma piora no quadro e com a necessidade do governo de evitar que o desemprego se tornasse vidraça eleitoral para a oposição.
Na segunda-feira passada, admitiu voltar atrás na medida provisória que prevê a redução da jornada de trabalho - a MP havia sido criticada por dois juristas. Para o ministro, a mudança da medida era apenas um gesto de cortesia política, já que, ao contrário do que afirmam os mesmos juristas, o texto da medida não fere a Constituição. Detalhe: os dois juristas fazem parte de um conselho criado para assessorar o ministério na elaboração de normas trabalhistas. Ao que se sabe, não foram consultados previamente sobre o assunto.
Sob o aspecto da ação, o ministro pouco realizou até agora, como era de esperar. Afinal está aí somente há quatro meses. E faz questão de dizer que não existem grandes soluções para o desemprego, um problema estrutural, decorrente de processos econômicos globais. Nesse ponto, também, não conseguiu ficar livre de tropeços.
O estilo dele é ir costurando medidas de longo prazo. O governo precisa dar respostas rápidas, pressionado pela agenda da campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique. Enquanto Amadeo parece preferir a austeridade nas promessas e a discrição nos anúncios, o Palácio do Planalto lança grandes pacotes, que depois acabam se revelando mais modestos que o embrulho. As medidas da semana passada não vão resolver nem a mínima parte do problema do emprego, embora tenham sua importância. Ainda assim mereceram um anúncio pomposo. Resolvidos esses problemas de adaptação, o ministro poderá mostrar muito mais, e certamente o fará, se for mantido no cargo. Mas tem como desafio desenvolver um tônus político próprio e mais consistente.

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