Um dossiê abrasivo
A farsa ‘Ferreirinha’ não deixou tantas sequelas, em que pese a gravidade do estelionato eleitoral (afinal, muitos afirmam que não teria sido a causa eficiente da derrota de Martinez, até porque o próprio interessado declarou que medidas de Collor o teriam afetado muito mais, sem falar na questão dos diplomas inexistentes), como se dará agora com Requião na hipótese de o dossiê ganhar os meios de comunicação.
No caso anterior houve falhas processuais gritantes, como não ouvir o litisconsorte necessário que era Mário Pereira, vice-governador, que foi um leão, ao lado de Osmar Dias, na defesa do mandato do governador cassado. Desta feita, o processo tem rica documentação, fartíssimo material comprobatório do desvio de poder, do uso de dinheiro público para promoção pessoal ou de caráter partidário.
O governo está equidistante - o que é corretíssimo - dessa questão. Lerner em momento algum se empenhou em devassas do seu antecessor, e isto tanto é verdade que nos manifestos em defesa do mandato de Requião, que ontem circulavam na Assembléia Legislativa, havia inúmeras assinaturas de deputados vinculados ao situacionismo.
O assunto fica no Judiciário, mas a canaleta política tenta sensibilizá-lo. A tentativa de sugerir que o TRE agiu com espírito de vindita, por força dos agravos sofridos quando o senador governava, é primária e emocional. O dossiê contra Requião foi montado com extremas dificuldades porque até o Tribunal de Contas se negava a fornecer certidões como as que comprovam o pagamento pelo Tesouro de matéria do PMDB publicada em jornais nacionais, a pretexto da prévia presidencial no interior do partido contra Quércia.
Durante os debates do julgamento, os juízes falaram da mudança comportamental no processo político-eleitoral, com a presença dos marqueteiros e a força desequilibradora da mídia. Governos paranaenses, de um modo geral, têm abusado desse particular, tornando leigas determinadas funções do Estado para privilegiar a mídia, como se esta substituísse a ação administrativa.
Dá-se o mesmo nesse momento com Lerner, enquadrável também pelas distorções no crime eleitoral. Urge uma jurisprudência clara que mostre limites, caracterize abusos. O advogado Nilso Sguarezzi, que patrocina a causa de Hélio Duque, acha que a cassação do senador Humberto Lucena, salvo pela anistia de FHC, formou jurisprudência, aplicável ao caso do senador Requião, o que seus defensores contestam.
BIZARRICE - Uma das gozações da moda em Londrina e que irrita especialmente os irmãos Vezozzo, pela repetição, é um cliente do Hotel Bourbon pedir à mesa um filé ou uma pizza a ‘‘Hauly-óleo’’.
SPRAY - Maior prova de falta de inteligência, de gente habilitada a pensar e a emitir esse pensamento a grupos específicos (a comunidade, clientela interna, profissionais liberais etc), do governo estadual foi evidenciada na questão da venda das ações da Copel. - Agora, no caso do Proem ficou nítido que, apesar de gastar fortunas com consultorias, o governo não consegue se comunicar e levou um baile na primeira turbulência. - Uma reflexão: essa terceirização feita em nome da modernidade está consagrando gente inabilitada, que chuta em vários campos, e esvaziando o governo. Esses embates o comprovam. Nos canais institucionais, até que consegue alguma coisa. Nos informais, dançam. - 112 emendas ao orçamento municipal dão bem a idéia das dificuldades que terá o futuro prefeito, Cássio Taniguchi. Uma delas reduz o remanejamento de verbas para 5%, o que obriga o governo a viver negociando com a Câmara. - Clima bom para valorizar posições na eleição da Mesa: os vereadores Jair César, Jairo Marcelino e José Aparecido Alves, do PDT, não concordam com Derosso e ficam fiéis ao grupo Pró-Cidade, em favor do Íris Simões. - Senac oferecendo curso de ‘‘análise e atualização do ICMS’’ a ser ministrado de 25 a 29 do corrente, das 19 às 22 horas, aos profissionais da área. Isso nada tem a ver com a precipitação de alguns empresários que confiaram em assessorias marginais, como essas que deram o golpe da fraude das guias. - A propósito, a Procuradoria da República esbarra com bloqueio de traço esotérico quando busca informações cruzadas no Serpro e na Dataprev. O mesmo golpe do Clube dos 60 em sua dimensão federal (INSS).
FOLCLORE 1 - Rafael Greca, ao usar a expressão de Mao Tsé Tung sobre capitalismo, para referir-se a Requião (‘‘tigre de papel’’), levou o revide de que é ‘‘tigre de pelúcia’’.
FOLCLORE 2 - Um londrinense foi ‘envenenar’ Álvaro Dias dizendo que o ex-deputado Otássio Pereira estava fazendo campanha em favor de Belinati. Álvaro, que mesmo no fragor da batalha não perdeu a humanidade, disse que a amizade do Otássio por Belinati não era defeito, mas uma virtude e um direito. Nem sempre o áulico é exemplo de lealdade, muito menos quando se faz mesquinho.
GLOSA - Aos que se apressam em festejar a cassação de Requião, um lembrete: o povo brasileiro é, antes de tudo, um cultor do vitimalismo. Não fosse assim, Maria Bueno, que aliás foi assassinada perto da loja da família Requião, não seria canonizada em termos populares. Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 1954, os que o acusavam no dia anterior fizeram purgação de culpa.
AXIOMA - Se bancos nem empreiteiras puderam, por causa da crise, financiar a campanha eleitoral, de onde veio esse maná bíblico, visível, aliás, no segundo turno em Londrina?
EPIGRAMA - A novela ‘‘O Rei do Gado’’ vai ter hoje três horas de duração: é que vão vacinar o gado da Léa, ex-mulher do Bruno.

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