Intriga o desfecho da série de reuniões mantidas ontem pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, com cada um dos quatro candidatos à sucessão. Os encontros aconteceram separadamente, reunindo FHC, o ministro Pedro Malan, da Fazenda, Armínio Fraga, presidente do Banco Central, e um candidato por vez acompanhado de no máximo dois assessores. O secretário-geral da Presidência, Euclides Scalco, ''testemunhou'' as conversas.
À exceção de Anthony Garotinho, mais reticente às explicações do Planalto mas o que menos importa na ordem das coisas, já que ocupa a lanterna na corrida presidencial os outros três deixaram o gabinete de FHC convencidos da absoluta necessidade do acordo com o Fundo Monetário Internacional e, mais que isso, comprometendo-se até o fio do bigode a cumprir as cláusulas pactuadas para o empréstimo.
Nenhuma surpresa quanto a José Serra, naturalmente. Candidato governista, apesar de evitar vestir esse figurino o mais que pôde, era previsível que fizesse coro ao discurso oficial e prometesse cumprir à risca o contrato que, afinal, livrou o governo que o apóia de uma grande enrascada.
O que espanta é a postura de Ciro Gomes e Luiz Inácio Lula da Silva, os mais cotados a disputar a vaga no segundo turno e ferrenhos opositores do modelo tucano.
A grande surpresa do dia ficou por conta de Ciro, que amenizou declarações recentes uma delas, a de que se 'lixava' para o mercado garantindo que cumprirá direitinho o que FHC e FMI acertaram. Até mesmo a meta de superávit primário de 3,75% do Produto Interno Bruto será honrada em um eventual governo seu, garantiu. ''A situação do País é delicada'', declarou, mais compreensivo que o habitual.
Lula avisou que, se eleito, mudará a economia brasileira logo no primeiro dia e sugeriu medidas para facilitar o início do seu possível governo a partir de 1º de janeiro. Mas disse, afinal, o que FHC queria ouvir: pretende honrar contratos, controlar a inflação e governar com rigor fiscal. Tudo como reza a cartilha do FMI.
Duas alternativas concorrem. Ou os dois candidatos de oposição decidiram incorporar, a um mês e meio das eleições, o estilo ''low profile'', evitando antagonismos, ou o quadro da economia brasileira pintado por FHC, Malan e Fraga é mais feio do que se pensa. Convém torcer pela primeira.
Ruth Meira

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