Um deus à nossa imagem e semelhança
Cristo veio, antes de tudo, propor um novo projeto civilizatório, centrado no amor e na fraternidade
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
Cristo veio, antes de tudo, propor um novo projeto civilizatório, centrado no amor e na fraternidade
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Ao longo da história, as religiões foram frequentemente usadas para legitimar injustiças e atrocidades. O método se repete: deforma-se a mensagem original e se produz uma narrativa conveniente aos interesses dos poderosos. Substitui-se a centralidade do amor, da igualdade e da fraternidade pela do medo e da alienação, e cria-se um deus à imagem e semelhança humana, que só age mediante bajulação, sacrifício e barganha. Trata-se de um processo de antropomorfismo, em que se transfere para a divindade o lado mais mesquinho do ser humano.
Nada mais distante da mensagem trazida pelos Evangelhos - a chamada boa nova. A cruz, elemento central do cristianismo, nos convida a abraçar duas dimensões interdependentes. O madeiro vertical aponta para o alto, para o mistério, para o absoluto, numa comunhão com o todo. O madeiro horizontal, que se cruza ao vertical, aponta para o lado, para o semelhante, e convida à fraternidade incondicional, acolhendo o ladrão, o leproso, o miserável, o estrangeiro, a mulher adúltera, o homossexual, o negro, o indígena ou, simplesmente, aquele que chora pelas agruras da vida. É na integração dessas duas dimensões que Deus se fez presente.
Jesus Cristo não veio com a intenção de criar uma igreja, mas de estabelecer o Reino de Deus, mencionado mais de 100 vezes no texto bíblico. Esse Reino se manifesta na forma de vida compartilhada, presente nas primeiras comunidades cristãs, conforme descrito em Atos (4, 32-35): “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas, as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um”.
Cristo veio, antes de tudo, propor um novo projeto civilizatório, centrado no amor e na fraternidade. Ele nos convida a amar e a agir em favor de quem é visto como diferente e, por isso, excluído do banquete que deveria ser comum a todos. Quando se fala em direitos sociais, solidariedade, distribuição de renda e inclusão social é, na essência, viver o Evangelho: transformar a contemplação em compaixão e ir ao encontro dos que mais sofrem. Afinal, “quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, que não é visível” (João 4,20).
No período de Natal, a sensibilidade tende a florescer, favorecendo ações de caridade. Muitas vezes, essas ações são realizadas por pessoas que, ao longo do ano, se opuseram a políticas públicas voltadas para a justiça social, recusando-se a abrir mão de privilégios e a corrigir injustiças históricas. São indivíduos que se opõem ao Bolsa Família, a cotas em universidades públicas, a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho ou o aumento salarial. A caridade agrada ao ego, reveste-se de poder e anestesia as consciências. Por outro lado, a justiça social incomoda, pois interfere nas instituições, altera as regras em favor da dignidade e promove a emancipação da pessoa humana
O que diria Jesus se regressasse à Terra? Será que entenderia as abissais desigualdades materiais como justas, fruto de esforços desproporcionais, em que cada um tem o que merece? Será que exaltaria a competição, a hierarquia e a exclusão? Não podemos esquecer que o Brasil é um dos países com maior número de pessoas que se declaram cristãos e, ao mesmo tempo, uma das sociedades mais desiguais do planeta. Isso deveria ser motivo de constrangimento e de reflexão sobre o que realmente se entende por cristianismo.
Luís Miguel Luzio dos Santos, pós-doutor em filosofia


