Um debate que não houve
Walmor Macarini
O denominado ‘‘debate’’ dos candidatos a prefeito de Londrina, segunda-feira, na TV, nada mais foi que uma conversa de cozinha. Porque não houve debate, mas um enfrentamento entre os cinco postulantes. Eis que eles, que deveriam ser os respondedores, foram também os perguntadores, e apenas eles. Os cidadãos não puderam perguntar, pois não foram chamados.
O erro está na metodologia. Então, o que se supôs ser um debate, não foi. Também não se fez presente a democracia, pela mesma razão que o eleitor foi privado de participar, sendo-lhe permitido apenas assistir. A única democracia que houve foi a liberdade de os candidatos perguntarem o que quisessem, entre si. E como os políticos costumam confrontar-se, eles ficaram livres na arena. Interessou muito pouco aos cidadãos assistir ao espetáculo, ficando-lhes apenas a opção de avaliar quem foi mais ardiloso e quem se sagrou campeão da noite.
Em linguagem jornalística, significou que os candidatos assumiram o lugar do comunicador, como tal inqualificando-o, e não por culpa deles. O excesso de zelo da emissora – que, nestes casos, teme perder as rédeas do programa – aboliu a presença de jornalistas e dos cidadãos, que eram os que deveriam estar lá, para questionar.
Óbvio que não foi intenção da emissora privar ninguém, eis que assim têm feito a maioria delas ao longo dos tempos, com uma ou outra variações mas que raramente contemplaram a presença do jornalista e do cidadão.
Apenas uma questão de método. Mas o show dos cinco, em Londrina, resultou em algo morno e desinteressante. No jargão futebolístico diz-se que é o jogador bater o escanteio e ainda correr para alcançar a bola no ar e fazer o gol de cabeça. Eles foram a causa e o efeito.
Por esse processo sempre acontece o inevitável: que os candidatos passem a escolher a quem fazer determinadas perguntas, atacando uns e poupando outros. Até porque os tidos como mais fracos podem vir a ser aliados num segundo turno. É todo um jogo de ardís – nem sempre bem-sucedido – e de conveniências, ademais uma prática comum na vida política brasileira. Um videogame. Nesse palanque eletrônico vence sempre o mais hábil, o que não significa, obrigatoriamente, que ele resulte no mais correto e competente administrador público, nem que o mais tímido e menos experiente não venha a revelar-se um estadista.
Há que louvar a emissora por criar o espaço-tempo e tomar a iniciativa de ser a primeira, mas os próximos eventos do gênero ganhariam em qualidade se fosse abominado o sistema de perguntas entre os candidatos. No lugar deles (candidatos-perguntadores), um elenco de jornalistas, líderes das associações de classes, jovens, adultos, mulheres, idosos. Cada qual com o direito de fazer um número determinado de perguntas, de contestar se o deseje, dando-se igualdade de direito aos candidatos. Esta seria a fórmula ideal de se conhecer melhor os projetos dos candidatos, de questioná-los e de apresentar eventuais contra-argumentos e alternativas. Se o debate se acalorar, tanto melhor. E que o programa comece mais cedo, para não terminar tarde, e assim garantir a audiência plena.
Sabe-se que neste País até horário de jogo de futebol é prorrogado, por causa da ‘‘novela das 8’’...
Programas ao vivo com os candidatos, pelo rádio e TV, deveriam ser semanais, ao invés de sermos obrigados a ouvir apenas programas montados, que nunca retratam a realidade mas são apenas amostragem de um produto que vem acondicionado, com toda a maquiagem que os estúdios possibilitam e que vêm com aquela aparência de pureza absoluta.
O que não tem cabimento é candidato perguntando a candidato. Eles tomam o lugar do quadro de entrevistadores da própria emissora, que no caso passa a ser apenas intermediadora ao invés de agente. A função do entrevistador é interagir, porque de certa forma ele tem a outorga da comunidade para ser a sua voz e os seus olhos e ouvidos. E melhor ainda com a presença física das representações efetivas dessa comunidade. Os temas seriam colocados em discussão e os candidatos teriam que se ater a eles apenas, sem tergiversações nem troca de acusações. Estaria montado o cenário perfeito para o autêntico debate.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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