Ataques especulativos, aumentos de juros, rombos fenomenais nas contas públicas. Nada disso combina com o líder de charme. Como era bom interpretar o personagem. Ser comparado nesses quesitos a John Kenedy, ao ex-primeiro ministro do Canadá, Pierre Trudeau, a Giscard d’Estaing, a Tony Blair.
Como era bom ter estilo. O prazer de espantar. Colocar na ação política uma certa dose de provocação. Mas sem ir muito longe, porque o sistema político não tolera. Depois, ter encontros informais com o ex-ministro socialista da Cultura, o francês Jack Lang, e com aquele pessoal da Sorbonne sempre foi agradável.
Mas a realidade em cascata acabou com essa fase. O líder de charme, pelas regras de marketing, precisa ser substituído por coisa mais forte, mais impactante. O líder de charme deixa a cena e entra a figura do pai-herói. Severo, consciente da gravidade da hora, solene. Mas, ao mesmo tempo, o chefe providencial, o salvador. Capaz de levar seu povo através desses tempos cinzentos. E aí vencer a angústia, a incerteza dos tempos difíceis.
Fernando Henrique abandona os jardins ensolarados do Alvorada e aparece formal no Itamarati para dizer que ‘‘O Estado tem que ceder dentro dos recursos que a sociedade lhe dá e tem que utilizá-los da melhor forma possível’’. O terno claro e a camisa azul foram trocados pela roupa azul-marinho e a camisa branca. ‘‘Talvez sejamos obrigados a uma discussão aberta sobre aumento de impostos’’, disse o presidente, para equilibrar as contas públicas de forma rápida e definitiva.
Como todo espetáculo de porte, esse teve produção cuidadosa. Demorou uma semana para ser realizado e foi um sucesso de crítica. Mas não funcionou muito como obra interativa. O pessoal não gostou quando Fernando Henrique conclamou governadores, prefeitos, o Legislativo, o Judiciário a também cortarem os gastos. Os empresários olharam torto quando o presidente falou em aumento de juros. Os sindicatos já saíram dizendo que tudo vai cair nas costas do trabalhador. É sempre aquela velha história: todo o mundo está de acordo com a idéia de que é preciso fazer sacrifícios. Desde que os sacrifícios sejam dos outros. A crise é grave, é preciso tomar medidas, contanto que não atinjam os interesses de ninguém.
Aí fica difícil. Onde é que anda o Congresso para discutir as dificuldades? Anda buscando votos para garantir a sua sobrevida nesse mesmo sistema que já demonstrou não ser capaz de dar resposta aos problemas que tem pela frente.
Esse é apenas um ponto da irresponsabilidade. Existem outros, talvez mais graves. Alguns economistas independentes acham que acertar as contas públicas é dever fundamental e de bom senso. O problema é o modelo. Não adianta arrumar a casa pensando na volta do capital externo porque ele não virá. A luta seria montar um sistema que fortalecesse o mercado interno para tornar o País menos dependente dos predadores internacionais, dos donos do capital especulativo.
De qualquer forma, houve um avanço. A crise começou a ser discutida. Os efeitos especiais, o show continua. Mas, pelo menos, ninguém mais finge que a megera não ronda por aí.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

mockup