São Paulo - Houve um tempo em que os lanterninhas eram incumbidos de flagrar aqueles amassos calorosos que os namorados davam durante a sessão. Hoje, a grande dor-de-cabeça dos exibidores da indústria cinematográfica está relacionada com o uso do celular durante o filme. E as empresas já arregaçaram as mangas para mudar o hábito de sua platéia.
Para constranger o uso do aparelho, a maior rede do Brasil, o Cinemark, vai colocar fiscais em suas 322 salas pelo país. Uma pesquisa realizada pelo Ibope Solution revela que, de cada dez frequentadores, quatro deixam o celular ligado durante o filme.
E não é só o toque da campainha que incomoda - há quem deixe o aparelho no vibracall -, mas o sonoro ''alô'' e o bate-papo que se desenrola depois. ''Basta alguém atender o telefone para quebrar o clima'', diz o bancário Alex Ambrósio Felipe, de 26 anos. ''Às vezes fico estressado. Já tive de gritar 'cala a boca'.''
''O certo é desligar o celular, mas se não dá, deixa-se no vibracall, atendendo sempre fora da sala'', diz Danuza Leão, uma das primeiras escritoras a modernizar os livros de etiqueta no país. ''Cinema não é lugar para ficar conversando.'' O cinéfilo Gabriel Gaspar, de 23 anos, já viu gente sendo expulsa da sala por falar muito durante o filme. ''Era um grupo de garotas. E a platéia aplaudiu a decisão do lanterninha.''
Terceiro maior exibidor brasileiro, o UCI dá funções de bedel ao lanterninha. ''Eles fazem a ronda durante a sessão para conter abusos do público'', diz Mônica Portella, gerente de marketing do UCI.
O celular não é o único problema. Chutar o encosto do vizinho, colocar o pé no braço da cadeira da frente, guardar lugar e trazer comida para dentro da sala são atitudes rotineiras que, não raro, causam confusão.
''Em Fortaleza, tem gente que entra no cinema com discos de pizza para dividir com os amigos'', diz Mônica. ''Pizza não faz barulho como chips ou pipoca, mas deixa um cheiro insuportável.''
Numa tentativa de mudar o comportamento do público, alguns exibidores substituíram a clássica vinheta de segurança - que, entre as advertências, lembra da necessidade de desligar o celular durante a sessão - por outras especiais e mais completas.
É o caso do grupo de sapos modificados geneticamente do desenho a ''Família do Futuro'' (com estréia prevista para abril no Brasil), que serviu de personagem para um curta produzido pela Disney. Com menos de dois minutos de duração, um sapo-cantor, acompanhado de sua banda, narra coisas irritantes que acontecem num cinema. ''Cara chato de aturar, minha poltrona pára de chutar'', diz numa parte da canção (veja letra completa no box).
E lembra no final: ''Aqui não é sua casa.'' A estratégia atende a necessidade dos exibidores e, ao mesmo tempo, divulga o desenho da Disney. O público agradece a iniciativa.

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