Um castelo sobre areia poluída
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de agosto de 2001
Gaudêncio Torquato 
Uma parede es tufada, abau lada, não merece tinta. Antes, pre cisa ser aplai nada, corrigida, tirando-se o re boco mofado. Nenhuma tinta, por mais alegre que seja, conseguirá mudar a cara de tristeza de um velório. Cobrir um chão esburacado com um tapete persa é coisa de malandro ou de novo rico. Nenhum exímio alquimista conseguirá dar um bronze adequado à palidez do Congresso. Dinheiro nenhum, mesmo quantia superior aos R$ 8,5 milhões reservados pelo presidente da Câmara Aécio Neves, conseguirá mudar a imagem parlamentar. O bronze que o neto de Tancredo quer imprimir à Câmara não resistirá a uma leve chuva de verão. Por uma questão elementar: não adianta tratar as consequências; o importante é cuidar das causas da doença.
O Congresso padece de uma doença crônica, cujos sintomas mais visíveis aparecem na expressão de uma formidável rejeição aos parlamentares por quase todos os segmentos sociais. O parlamentar é visto pela sociedade como um cidadão privilegiado, que trabalha pouco, é cercado de regalias e benefícios, não cumpre os compromissos de campanha e faz da política uma escada de negócios. Os piores adjetivos qualificativos da República acabam batendo na cara de deputados e senadores. E por que isso ocorre?
Há explicações. A sociedade identifica nos Poderes Executivo e Legislativo os principais ralos por onde escoam os problemas nacionais. Se há crise, eles são os responsáveis. A mídia, por sua vez, abriu, nos últimos anos, gigantescos holofotes para o Congresso, flagrando atos ilícitos, corrupção, desmandos, o que ocasionou a cassação de mandatos de deputados e senadores. A lupa forte continua. E cada figura parlamentar em queda carrega, consigo, a imagem da instituição a que pertence. É difícil separar a parte do todo. Uma breve notícia na TV sobre um político corrupto, assistida por 80 milhões de brasileiros, respinga na cara de outros.
A exposição de casos, como a de Jader, transfere o território da roubalheira nacional para o ambiente parlamentar. E o sentimento de indignação aumenta com a percepção de que, exatamente nesse momento de extremas carências sociais, algo está sendo tirado do bolso dos brasileiros. Aos impostos e tributos não correspondem serviços públicos essenciais. As angústias se expandem, fundindo-se em imprecações contra políticos e o que eles representam. Portanto, o político transforma-se em um elo da equação que forma o Produto Nacional Bruto da Infelicidade (PNBinf).
A tinta colorida da publicidade vai melhorar a imagem dos políticos? Claro que não. Ao contrário, poderá ser um bumerangue. Adianta uma campanha para anunciar que os parlamentares trabalham, que exercem importantes funções nas Comissões Técnicas, que votam leis fundamentais; e que, graças a sua atuação, o País ganhou reformas constitucionais responsáveis pelos pilares da modernização?
Não. Pois a cosmética publicitária não conseguirá desmanchar nós e vieses da vida parlamentar, entre eles as mazelas do fisiologismo, os feudos políticos, o individualismo egocêntrico, a pletora de partidos, as negociações nem sempre inspiradas no civismo?
Adianta, isso sim, uma reforma política que traga a moralidade, o compromisso ético, a fidelidade partidária, a densidade doutrinária, a proibição de siglas de aluguel, o desmanche da imunidade parlamentar para crimes comuns, leis eleitorais permanentes, aperfeiçoamento do sistema de representação política. Que adianta pintar a casa de verde, se amanhã estará novamente pichada de vermelho? Aécio faria melhor se passasse a ser o arauto da oxigenação parlamentar e não apenas o desenhista de plantão. Seu pacote ético não combina com a cosmética publicitária. Ademais, a TV Câmara pode ser vista, hoje, em todo o País. E aí o neto de Tancredo retruca: ''Mas é apenas a elite que vê''. O que ele queria? Que o povão deixasse de ver Hebe Camargo, Ratinho, Gugu e Silvio Santos, Faustão e Adriane Galisteu, para ouvir a oratória, nem sempre audível, do Plenário da Câmara e das Comissões?
Cultura não é coisa que se impõe por decreto. Nem menos com publicidade. Pode-se, por meio de um anúncio, induzir alguém a comprar um bem. Mas ''vender'' a identidade da Câmara, por meio da comunicação, para se obter uma ''boa imagem'', é esquecer que, por trás dela, move-se a política brasileira, com sua carga negativa. Não se isola e não se ''compra'' essa parte do todo. Antes, a política tem de melhorar. Se isso não ocorrer, qualquer esforço imagético equivale a construir um castelo sobre areia; pior, sobre areia poluída e movediça.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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