Um castelo no Norte Pioneiro
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domingo, 09 de fevereiro de 2003
Ana Setti<BR>Reportagem Local 
Quando pensou em construir sua clínica em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), o médico dermatologista Saulo J. Araújo, 35 anos, mineiro de São João Del Rey, estava lendo um livro sobre Antoni Gaudí, arquiteto catalão que viveu de 1852 a 1926 e é considerado um dos criadores mais audaciosos e originais da época moderna. Saulo também queria fazer algo diferente. ''As construções, em geral, não trazem novidades e sempre acreditei que especialmente um imóvel comercial deve ser original'', diz ele. ''É uma forma de demonstrar respeito ao cliente, que encontra aqui um lugar agradável, alegre, colorido, onde se sente bem''.
Iniciada em 1999, a clínica do doutor Saulo levou 2 anos e 4 meses para ser concluída. Para concebê-la, no entanto, no nível dos esboços e dos desenhos, bastaram dois dias de uma viagem que o dermatologista fez à sua terra natal no fim do ano de 1998. Como se poderia temer a princípio, a ousadia do projeto não intimidou a mão-de-obra local e da vizinha Ribeirão Claro. Ao contrário, funcionou como um estimulante desafio. ''Quanto mais complicado mais o pessoal gostou de fazer''. E dificuldades de toda ordem não faltaram à essa construção de cerca de 500 m2 de área total e quatro andares, divididos em garagem (subsolo), clínica (térreo) e residência (1º e 2º andares).
Por se tratar de um trabalho artesanal, em que os padrões tradicionais de construção e, especialmente, de acabamento precisaram ser deixados de lado, os detalhes ganharam importância. ''Levamos seis meses estudando a melhor forma de colocar as peças de cerâmica no revestimento externo do piso e das paredes da clínica'', lembra Saulo, apontando as linhas arredondadas e as sinuosidades da fachada como uma das principais dificuldades da obra.
A solução foi cortar as peças, uma a uma, com a ajuda da maquita, tirando todos os cantos e arestas. Outro ''detalhe'' que deu trabalho foi a placa ou o ''tótem'' de identificação da clínica, colocado no jardim. Nem um pouco tradicional, com uma estrutura de apoio feita de bases retorcidas, a placa exigiu, para se manter aprumada e sem risco de tombamento, quilos de ferragens abrigados em uma escavação de seis metros de profundidade.
Contudo, se a estrutura e as formas da construção estão distantes do padrão, os materiais utilizados na obra incluem-se entre os mais simples e tradicionais possíveis: azulejos, cerâmicas, madeira, gesso, laminados. Talvez resida aí o maior segredo do bem sucedido empreendimento. ''Nada de mármores, espelhos e vidros em profusão'', comenta Saulo, que usa esse argumento para demonstrar que sua construção é apenas original, mas não por isso mais cara. Exemplifica com as janelas, feitas de forma artesanal em função dos recortes, volteios e arredondados diferenciados, que ficaram em torno de R$ 200,00 cada, ou seja, a um preço médio de mercado.
''Como ensina Gaudí, não é preciso pompa para se obter uma obra de arte, um trabalho artístico em cima de uma casa, mas apenas criar em torno de cores e formas'', diz o médico.
Apesar da vida corrida, que o leva a trabalhar praticamente de segunda a segunda, cerca de 11 horas por dia, não só em Santo Antônio da Platina, sua base, mas também em Jacarezinho, Presidente Prudente e Londrina, Saulo não perde o entusiasmo e continua cheio de idéias. Seu próximo plano é a construção de um laticínio, para a produção de queijos finos. ''Gosto de investir em coisas para pessoas'', afirma.
Desta vez, no entanto, não poderá inovar muito na construção porque as áreas fabris têm normas muito rígidas, impostas pela Vigilância Sanitária. Mas o jardim é área livre e é ali que pretende dar asas à sua imaginação. Saulo será sempre um partidário do novo, do original, do ousado, pois acredita que ''a humanidade evolui pelas diferenças e não pelas igualdades''. Com certeza, olhar um pouco mais à frente tem suas vantagens. Como gosta de dizer, ''inventar dá trabalho, mas vale a pena!''.


