A estatística é um conjunto de referências rígidas e objetivas. Se formos analisar o país pelo seu espelho, as coisas vão muito bem. Basta ver a manchete econômica da semana, que aponta o menor índice inflacionário dos últimos 12 meses em São Paulo (0,11% em julho). O olhar frio dos índices projeta para 98 uma inflação de Primeiro Mundo, algo em torno de 4%. Seria maravilhoso se a economia fosse uma ciência exata. Não o é. Trata-se de uma ciência humana. Para complicar, ciência humana desenvolvida no país da instantaneidade, que é Brasil. Aqui, as coisas ocorrem em cima da bucha. A nuvem de hoje é o sol de amanhã e vice-versa.
Façamos, agora, um pequeno exercício de interpretação. A movimentação dos policiais civis e militares de todo o país certamente vai gerar resultados. Um modelo novo será gestado. Ninguém espere, porém, que a coisa fique no simples terreno da unificação das polícias, ou seja, que a solução esteja apenas no plano conceitual, técnico e operacional. A motivação básica do movimento foi salário. Os policiais de mais baixo escalão querem aumentar os tetos salariais. Sua força política é expressiva. As PMs garantem que os 600 mil policiais na ativa e os 300 mil da reserva mobilizam 2 milhões de votos nas bases eleitorais. Portanto, os Estados, queiram ou não, terão de decidir sobre a questão salarial.
Segunda linha de raciocínio: mais de 20 Estados gastam acima dos 60% da receita com funcionalismo. A quebradeira é geral. Para navegar com tranquilidade, governadores terão de cortar fundo as despesas. Para ser mais correto: quem ainda não demitiu funcionários, terá de fazê-lo. É pouco provável que o façam, agora ou mais adiante, em 98, o ano eleitoral. A pressão do funcionalismo ganhará empuxo com a pressão das polícias, formando-se um caldeirão efervescente, que ameaça queimar o prestígio de quem tem e afundar de vez o perfil dos governantes impopulares.
Terceira linha de raciocínio: categorias insatisfeitas com a situação aproveitarão os momentos de instabilidade para apresentar reivindicações e adensar a estratégia do ‘‘quanto pior, melhor’’. Contabilizados no exército dos desvalidos, estarão ressentidos com o andamento da reforma da Previdência, professores insatisfeitos com salários, sem terra, sem teto, desempregados, segmentos de trabalhadores na indústria, entre outros. O frango de CR$ 1 não será suficiente para conter contingentes motivados a abrir o verbo na luta pela verba. É bom sempre lembrar que, a partir deste segundo semestre, entramos no pré-circuito eleitoral.
Quarta linha de raciocínio: as pressões e contrapressões, as reivindicações e lutas, sejam de setores ou dos Estados, baterão fortemente nas portas do Palácio do Planalto. Lá estará um candidato à reeleição, com óculos mais moderno, que evitará multiplicar os ‘‘nãos’’, sob pena de ser considerado o culpado número 1 pela frustração geral de numerosos grupos da sociedade. Para dizer ‘‘sim’’ aos pleitos, o governo terá de abrir os cofres, usar verbas de contingência, praticar o óbvio das campanhas eleitorais: gastar. E gastar em campanha eleitoral significa, no mais das vezes, jogar dinheiro nos projetos personalistas dos políticos.
Neste ponto, a estatística do início do artigo marca um encontro com a estatística de campanha. Se FHC conseguir soltar dinheiro para os Estados, empurrar os candidatos da base aliada, conter a fúria de setores enraivecidos, marcar pontos com obras importantes, acertar, enfim, os ponteiros desajustados do imenso relógio nacional, dando tranquilidade ao país, e ainda segurar uma inflação de Primeiro Mundo, não será apenas candidato à reeleição: será candidato a Deus. Estaria operando o milagre de mudar a identidade das ciências e a natureza das coisas. E seria o primeiro estadista clonado na História.

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