Um brilho de limpeza no ar
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
No final da década de 60, quando o lavador de aviões Lino Ambrósio, 54 anos, saiu do sítio onde morava, no interior de São Paulo, para ganhar a vida em Londrina, ele mal sabia o que era uma aeronave. Por isso, ficou muito empolgado quando foi convidado para ajudar na limpeza dos aviões, que pousavam e decolavam na cidade que começava a ser conhecida como a ''terra do café''.
Hoje, quase quatro décadas depois, ele conta com orgulho que criou os dois filhos, conquistou sua casa própria e comprou um carro com o dinheiro que conseguiu lavando aviões.
De boa conversa e alegre, por poder contar como é seu serviço, Lino Ambrósio recebeu a reportagem da FOLHA no Aeroclube de Londrina. Caprichoso, ele fez questão de mostrar com detalhes sua maneira de trabalhar, que chega a ter um certo perfeccionismo. Tudo para deixar as velozes máquinas voadoras ''bonitonas'' e, assim, em condições de pousar nos mais diversos cantos desse Brasil.
''Quem é leigo no assunto acha qua avião não suja. Isso é um engano. Um avião que sai daqui para ficar dois dias na capital paulista volta preto de poluição. Os que vão para as fazendas voltam sujos de terra, porque descem em pistas que não são asfaltadas'', conta.
Pelas explicações de Ambrósio, lavar aviões realmente não é uma atividade para qualquer um. É muito diferente, por exemplo, da lavagem de um automóvel. Utilizar mangueiras ou outras formas de esguichar água não é recomendável. ''A limpeza tem de ser feita a seco. Um jato de água pode danificar o mecanismo de recolhimento do trem de pouso ou alguma peça do motor. É uma função de responsabilidade'', ensina o lavador, que também trabalhou por um tempo na oficina do aeroclube e, por isso, conhece bem os mecanismos de uma aeronave.
A tal limpeza a seco é feita com pano e detergente ou com um shampoo especial nas partes externas. Por dentro, Ambrósio utiliza aspirador de pó e um pano umedecido. Para limpar o painel, mais cuidado ainda. Nesse caso, os instrumentos de trabalho são um pedaço de algodão e um delicado pincel. Nenhuma sujeira escapa aos olhos atentos do experiente lavador, que dispensa tratamento carinhoso às aeronaves. Para ele, os aviões devem estar sempre apresentáveis, mesmo quando estão no céu.
Isso fica claro no momento em que vai limpar a ''barriga'', ou seja, a parte de baixo da aeronave. Com um carrinho de madeira e rodas de rolimã, feito por ele mesmo, Ambrósio vai para baixo do avião. ''A barriga é a parte mais difícil de lavar, mas tenho de mantê-la bem limpinha, pois é a parte visualizada por quem está na terra quando o avião passa voando em uma cidade. Além disso, a sujeira na barriga do avião pode esconder um vazamento de óleo'', explica.
O capricho de Lino Ambrósio não termina com a lavagem. Ele também faz o polimento e passa uma tinta especial nos pneus para que fiquem pretinhos, com aparência de novos. No momento de polir, mais um cuidado especial, ele abre mão das máquinas para fazer o serviço à mão, evitando assim danificar a pintura.
Atualmente, ele cuida da limpeza de mais de 20 aviões e não pensa em deixar tão cedo essa atividade que lhe dá prazer. Para terminar a entrevista, o lavador, que é casado desde 1980 com Iraci Ambrósio e tem dois filhos: Marcos, 25, e Rogério, 24, pede ao repórter que escreva sobre o orgulho que tem dos seus meninos e relata, entusiasmado, que o mais novo está no quarto ano da faculdade de Direito e logo será um advogado. Aí está, seu Lino, pode mostrar para os meninos!


