É sabido que em briga de elefante quem se dana é grama. O governador de Minas Gerais Itamar Franco (PMDB) e o presidente da República Fernando Henrique Cardoso protagonizam a grande luta política deste cambaleante final de século. Itamar está na dele. É oposição. E o papel da oposição é justamente este: botar fogo no circo e se possível não avisar aos bombeiros. Não foi Itamar nem os governadores de oposição que determinaram a crise, como marotamente tenta demonstrar o discurso oficial, encampado pelos grandes veículos de comunicação. A crise era latente e se alimentava da insensibilidade de FHC e de sua equipe econômica, que só conseguem traduzir o povo em números e capacidade de pagar impostos.
Hoje, o governador do Paraná, Jaime Lerner (PFL) está no Rio de Janeiro conversando com seu amigo Anthony Garotinho (PDT), que engrossa o bloco dos governadores descontentes. Pré-candidato a presidente da República, Lerner tenta ganhar visibilidade na política nacional, que somada a imagem de bom planejador pode lhe render a confiança definitiva de eleitores de outros Estados. Ele pretende fazer a ponte entre os governadores da oposição e o Planalto. Provavelmente consiga, pois dentro do campo dos negociadores políticos sensatos há um vácuo enorme no Brasil.
Lerner leva no bolso uma proposta alternativa que passa longe da simples renegociação das dívidas estaduais. O governador do Paraná quer desonerar os Estados do pagamento dos inativos e pensionistas criando fundos de previdência. Mas para que esta proposta dê certo há de se ter um forte aporte de capital na constituição desses fundos. O governo federal tem uma dívida cavalar com os Estados a partir da Carta Constitucional de 88, que exigia a adoção de um regime jurídico único para as relações de trabalho. Os servidores públicos que estavam sob a égide da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foram absorvidos pelos Estados de forma até irresponsável. Da noite para o dia, sem concurso algum, eles passaram de CLT para a condição de estatutários. Um mastodôntico trem da alegria. E é este dinheiro, o que foi recolhido pelos Estados à União, quando seus servidores estavam na condição de CLT, que os governos estaduais querem de volta. A lógica de Lerner é simples: se a União não aposenta mais estes servidores, porque eles trocaram de regime, é justo que o dinheiro que está no INSS seja devolvido aos fundos de pensão dos Estados.
Lerner começa a interpretar seu novo papel de mediador sabendo que o estouro da crise dependia apenas que alguém provocasse a primeira fagulha. Itamar estava lá, e jogou, distraidamente, o fósforo aceso no depósito de gasolina. De imediato, nem mesmo FHC acreditou no incêndio. Amigo e conselheiro de Deus, FHC acreditava que o Brasil, com a subserviência aos agiotas internacionais, estaria imune à pandemia de crises que assolava os mercados financeiros.
Os analistas econômicos, na falta do que dizer e impedidos de fazer qualquer previsão séria sobre o pedido de Moratória de Minas Gerais, cunharam a pérola de que Itamar estava fazendo um discurso de candidato a presidente. Essa gente deveria se limitar a comentar o que supostamente sabem: economia. Por mais que Itamar deseje ser candidato na próxima eleição, ele sabe que tem 4 longos e árduos anos no comando do governo de Minas. Seu Estado, como de resto os outros da Federação, está falido e sob este ponto de vista, a ação de Itamar é plenamente justificável.
O presidente Fernando Henrique e sua equipe econômica sabem que o Plano Real, desde a sua concepção, vazava água por todos os lados. Os ajustes, como a correção da supervalorização da moeda, já deveriam ter sido feitos há tempos. As tão cobradas reformas poderiam tranquilamente estar vigorando, caso o nosso presidente não tivesse se empenhado tanto na aprovação da emenda da reeleição. O interesse pessoal de FHC sempre esteve acima dos interesses da Nação. E assim também se comportou o presidente durante o processo eleitoral. Empurrando os problemas do Real com a barriga, FHC prometeu mundos e fundos para um eleitorado apático que dormia sobre o abismo, feliz ao poder comprar bugigangas produzidas na China em lojas de R$ 1,99.
O impasse está criado, Itamar e FHC não estão muito dispostos a um armistício, resta saber se Lerner vai conseguir salvar a grama.

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