Indignado com a situação da maioria das escolas do País, o educador e teórico da educação Vitor Henrique Paro defende uma mudança radical. ''Para se fazer uma boa educação é preciso revolucionar tudo e não ficar apenas na discussão da gradezinha curricular'', afirma. Paro esteve em Londrina na semana passada ministrando palestra na Universidade Norte do Paraná (Unopar). ''A escola tem que ser gerida da forma mais democrática porque educação é a coisa mais democrática que existe. Educação ou se faz democraticamente ou não se faz'', condiciona.
Professor titular de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Paro entende que o educador tem a função de despertar na criança o interesse em aprender. E, para que isso aconteça, são necessários requisitos que vão além do conhecimento técnico. ''É necessário uma concepção profunda, rigorosa de educação e, porque não se tem essa concepção, não se percebe a necessidade de conhecimento e de instrumental técnico adequado'', esclarece.
O educador compara a atividade do professor com a do médico cirurgião. Lembra que, na época em que não se tinha conhecimento sobre a forma de curar uma úlcera de estômago, por exemplo, a saída era mandar o doente tomar qualquer coisa ou rezar. No caso de uma fratura, usava-se uma erva sobre a ferida como único remédio disponível. ''Hoje a medicina não age mais assim. Mas, na educação, continuamos curando fratura exposta com erva santa-maria'', compara.
Inconformado com o desempenho das autoridades que atuam no setor, o professor dispara: ''Vem qualquer panaca e diz que a educação não está boa e que precisamos fazer bons professores. Como se esse fosse o único problema. Como se fosse possível fazer bons professores sem antes disso, fazermos bons alunos na escola que está lá''.
Na opinião do professor, é preciso mudar a escola que está formando os professores. ''E mudar a escola é mudar seu modo de administrar, sua forma de se organizar, é ter novo modo de pensar, é ler Paulo Freire, por exemplo'', diz, referindo-se ao criador do método que vê o aprendizado como ato de conhecimento da realidade concreta, de uma situação real vivida pelo educando e que só tem sentido a partir da aproximação crítica dessa realidade.
Paro explica que, no modelo atual, a preocupação educativa se restringe ao chamado conteúdo que é entendido como conhecimentos. O teórico discorda: ''Educação tem que ser vista como apropriação da cultura. E cultura não são apenas conhecimentos, mas tudo aquilo que o homem produz em termos de conhecimento, de valores, teatro, filosofia, ciências, crenças, costumes'', enumera.
Nesse sentido, destaca o professor, o ser humano é um ser que se produz, ultrapassando sua natureza e produzindo valores. ''Ao dizer isso é bom, isso não é, ele cria algo que não existe. Ele cria cultura'', explica o professor. ''E cultura é tudo o que não existe na natureza, tudo que é produção do homem'', reforça, acrescentando que o conceito de educação tem o sentido de apropriação da cultura.
''Você só se apropria daquilo que foi produzido pela mediação da educação. Apropriar-se do foi produzido em todos os sentidos. Desde aprender a falar, a andar, a se comportar, a fazer arte. Você se faz humano e é diferente de uma ameba porque tem educação'', completa Paro. ''Transmitir educação é formar. Um ser só é humano se ele é sujeito, autor das ações''.

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