Um basta ao estigma de povo que não lê
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de setembro de 2001
Celso Piratininga Jr. 
No ano 2000, a indústria editorial brasileira vendeu 334 milhões de exemplares de livros, o que representou aumento de 15% em relação a 1999 (fonte: Associação Brasileira da Indústria Gráfica/Abigraf). O crescimento é bastante expressivo, mas não esconde um estigma histórico (''O brasileiro é um povo que não lê''), forjado por um crônico descaso de quase 500 anos com a educação e a cultura. Para constatar essa realidade, basta uma simples conta, dividindo os 334 milhões de livros vendidos em 2000 pelos 170 milhões de brasileiros. O resultado da operação é 1,96 livro por habitante/ano.
Deve-se considerar, ainda, que do total de livros vendidos naquele ano, 203 milhões de exemplares são didáticos, ou seja comprados pelos alunos do ensino particular ou pelo governo, para distribuição aos estudantes das escolas públicas. Este número mostra que o setor público, mais do que antes, preocupa-se em oferecer aos alunos de baixa renda a oportunidade de crescimento intelectual e desenvolvimento, inerente ao ideário da democracia, representada pela possibilidade de ter e ler um livro.
Este ano, o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), no âmbito do Ministério da Educação, estará quebrando um recorde mundial, ao comprar e distribuir 110 milhões de exemplares para alunos de todo o País. O esforço é muito louvável e responde às necessidades indicadas de forma muito clara em estudo do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb/99), que revelou dados emblemáticos e conclusivos: a média de desempenho dos alunos que utilizam livros didáticos e de leitura é maior do que a dos estudantes que não fazem uso deles.
Na 4 série do ensino fundamental, por exemplo, a diferença na média é de quase 20 pontos (158,08 para os alunos que não utilizam os livros de leitura e 171,06 para os que lêem). No caso dos didáticos, os alunos da 3 série do ensino médio que não utilizam os livros em sala de aula tiveram, em português, 12 pontos a menos do que os estudantes que utilizam o material na escola.
Números, bom senso e compromisso com a realidade de um país que precisa tornar a educação um de seus principais instrumentos de desenvolvimento são suficientes para justificar o acerto do superlativo volume de compra e distribuição de livros didáticos este ano.
No entanto, considerado o passivo histórico do descaso com a educação e a cultura, a disponibilização de livros para crianças e jovens de baixa renda não livra o Brasil do estigma de ser habitado por pessoas desinteressadas da leitura.
Por isso, outras medidas de estímulo à leitura, abrangendo crianças, jovens e adultos, são fundamentais para transformar o perfil cultural da sociedade brasileira. Por mais críticas que ainda se possam fazer à qualidade do ensino no Brasil, é inegável que, nos últimos seis anos, o Ministério da Educação vem criando melhores condições, através de programas como o do Livro Didático e da Biblioteca na Escola, para incentivar a leitura.
Nesse sentido, é muito importante a Campanha Tempo de Leitura (de 10 a 14 deste mês). Mais do que doar livros, a iniciativa demonstra o quanto é importante ler livros. A idéia, incluindo propaganda em rádio e TV e cartazes, é intensificar atividades voltadas à prática da leitura dentro e fora das salas de aula, sensibilizando a sociedade para a responsabilidade de garantir a todos o acesso ao saber, fator fundamental ao exercício da cidadania.
Trata-se de iniciativa do governo, com o apoio e participação de nomes como o do escritor e cartunista Ziraldo, artistas plásticos, professores, diretores, alunos e pais, assim como escritores, poetas, contadores de história, artistas, esportistas e personalidades. É a sociedade dizendo basta a uma realidade que não mais deve fazer parte da história brasileira.
Tomara, mesmo, que o estigma de país que não lê fique restrito às estatísticas contidas nos livros de história impressos no século XX. Quebrar esse paradigma é tarefa de cada brasileiro.
- CELSO PIRATININGA JR. é publicitário e professor universitário no Rio de Janeiro


