Se havia alguma dúvida sobre a comunhão eleitoral de Fernando Henrique Cardoso com os políticos profissionais, ela em parte se desmanchou com o ato político ecumênico ao qual o presidente compareceu no Senado, anteontem, para receber o apoio dos seus aliados do PMDB. Compareceram à manifestação líderes e dirigentes de todos os partidos que integram o governo e que se associaram em torno da idéia da sua reeleição. A iniciativa do presidente, adotada mesmo sob ameaça de contestação judicial, pois ele teria ferido a legislação eleitoral segundo processo anunciado pela oposição, demonstrou que candidato Fernando Henrique não se deixou levar pelas análises que lhe recomendam, para obter êxito eleitoral, distância dos políticos e de suas máquinas partidárias.
Essa parece uma conclusão inevitável diante da expressão política reunida pelo PMDB na grande mesa da cerimônia no Auditório Petrônio Portela, ao longo da qual, tendo o presidente ao centro, se acomodaram pelo menos trinta líderes do situacionismo. Para não cansar o leitor relacionando a extensa lista dos notáveis presentes, é mais simples mencionar as poucas e expressivas ausências, entre elas as dos ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco, as quais, de certo modo, podem ajudar a compreender um pouco a sucessão presidencial em curso.
As razões de Itamar são conhecidas, mas assim mesmo ele, mal ou bem, esteve ali representado por Newton Cardoso, seu companheiro de chapa na disputa pelo governo de Minas Gerais. Os motivos do senador Sarney são mais sutis. Como se sabe, depois de dramáticos confrontos internos, o PMDB se dividiu e não conseguiu formalizar qualquer posição na campanha sucessória, seja por participação com candidato próprio, seja se aliando aos partidos que apoiarão Fernando Henrique. O presidente do partido, deputado Paes de Andrade (CE), se sobressaiu nesse episódio repleto de lances obscuros. Ele se manteve no cargo por força de liminar judicial e, opondo-se à maioria que se inclinava pelo apoio à reeleição do presidente, se tornou dissidente no partido que, paradoxalmente, era por ele presidido.
Embora tenha permanecido todo o tempo na boca de cena, não era Paes o protagonista nem o foi Itamar, que tão intensamente desejou a legenda. A ausência do senador José Sarney na festa política do PMDB falou por si mesmo ao sugerir que era ele o motor que movia Paes de Andrade e que Sarney, de fato, alimentava a de que poderia brilhar como candidato da sigla PMDB, partido ao qual chegou pelas mãos do destino para, tornando-se vice de Tancredo Neves chegar como chegou à presidência em 1985.
Um gesto de José Sarney teria redirecionado os convencionais do PMDB e evitado que ‘‘o fato político’’ anteontem produzido ‘‘superasse o ato jurídico’’, como lembrou em seu discurso o deputado Michel Temer. O ex-presidente, no entanto, preferiu se isolar com Paes, o que talvez o conduza à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e ao ostracismo político, caso a sua escolha seja derrotada. Com Fernando Henrique, ele sabe, seguem não apenas as forças majoritárias que hoje governam o Brasil, mas quase todos os seus amigos na vida pública, entre os quais ex-ministros do seu governo como Antônio Carlos Magalhães, Íris Rezende e Jáder Barbalho.
- ARIOSTO TEIXEIRA é jornalista em São Paulo

mockup