O principal cartão postal da cidade virou um depósito de mato e lama. Prazo de sete meses previsto pela Prefeitura para a revitalização estourou, um secretário foi exonerado, um inquérito policial aberto e o local, um dos maiores orgulhos da paisagem urbana londrinense, oferece agora uma visão desoladora

‘‘Há 30 anos, só tinha o lago imenso. Era tudo limpo e tinha até uma área onde os moleques tomavam banho.’’ Essa era a visão que o professor aposentado José Borsato, 73 anos, e sua esposa, Maria de Lourdes Borsato, 69 anos, tinham do complexo de lagos urbanos que foram se formando a partir da construção da barragem no Ribeirão Cambé que originou o primeiro lago - o Igapó 1. O casal continua frequentando a região em suas caminhadas diárias, só que agora estão um pouco mais tristes. ‘‘O cartão postal da cidade foi transformado num porto seco’’, lamentam. Eles se referem ao mato e à lama que tomou conta do Lago Igapó 2 após seu esvaziamento em 25 de maio do ano passado. Esgotado para que as pontes sobre a avenida Higienópolis pudessem ser reformadas, o lago 2 é hoje um canteiro de obras.
O primeiro dos quatro lagos atuais foi inaugurado em 10 de dezembro de 1959, em comemoração ao Jubileu de Prata de Londrina. O lago foi pensado pelo então prefeito Antônio Fernandes Sobrinho com a intenção de conservar o verde na área urbana. Em 1970, o paisagista Burle Marx elaborou o projeto de urbanização, que acabou sofrendo alterações parciais ao longo do tempo.
Nestes trezentos e sessenta e cinco dias em que o Igapó 2 ficou vazio muitos problemas prejudicaram o bom andamento do trabalho: o lago foi esvaziado sem antes haver um projeto definitivo para sua revitalização; o processo de licitação foi marcado pela morosidade; até um inquérito policial foi instaurado para apurar se houve crime ambiental. Por tudo isso, o prazo inicial de sete meses para a revitalização do lago há muito já foi estourado. A demora acabou desgastando tanto a administração do prefeito Nedson Micheleti (PT) quanto a figura do vice-prefeito, Luiz Carlos Bracarense, que acumulava o cargo de secretário de obras até novembro de 2001, quando foi exonerado. Os dois chegaram a discordar publicamente do orçamento previsto para a obra: Nedson ‘‘estranhava’’ o valor estimado de R$ 1,5 milhão sem haver ainda uma definição orçamentária.
Hoje, já não se fala em prazos tão rígidos para a conclusão do trabalho. Com a posse do atual secretário de Obras, Aloysio Crescentini de Freitas, o projeto foi desmembrado em quatro etapas. A primeira, a reforma da ponte da avenida Higienópolis, foi encerrada em março. A segunda, a construção da barragem e do vertedouro, está em fase adiantada e a expectativa é de que a construção da queda d‘água esteja finalizada até 6 de julho. A revitalização e urbanização das margens, a terceira etapa, deve ser licitada no próximo mês, com as obras começando em julho e terminando em setembro. Ao todo, as três etapas deverão custar mais de R$ 1 milhão. A promessa é de que o Igapó 2 esteja cheio novamente até o final do próximo mês.
Já a quarta etapa e uma das mais importantes em termos ambientais, o desassoreamento do leito do Igapó 2, deve ficar somente para 2003 e será a mais demorada, adianta Freitas. ‘‘O trabalho de desassoreamento não vai acabar nunca.’’ A principal dificuldade, revela o secretário, são os custos. A previsão é de que mais de R$ 1 milhão sejam consumidos nas primeiras três etapas. Além do lago 2, a Prefeitura pretende limpar todo o complexo de lagos urbanos.
Para não polemizar, o secretário prefere não discutir o passado. Ele comenta apenas que ‘‘houve idéias erradas’’ que atrapalharam o trabalho. O secretário revela também que a promessa de que a Sanepar, considerada uma das principais empresas responsáveis pelo assoreamento do lago, ajudasse com recursos já foi descartada. O que está em discussão no momento é a construção do emissário de esgoto da Gleba Palhano, que deverá ser interligado a um maior que passa próximo ao Iate Clube. A idéia é que essa rede passe por baixo da ponte já que a prática de esportes náuticos ficaria prejudicada se a tubulação passasse no leito do lago.
Enquanto isso, o casal Borsato relembra com saudosismo o tempo em que podia apreciar acaloradas competições de barco no lago. ‘‘Nossa expectativa é que o lago volte a ser como antigamente’’, reforça o professor.

mockup