Um ano para entrar na história
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 2002
Renan Calheiros 
2002 já assegurou lugar nos livros que vão estudar nosso passado. Foi um ano de importantes conquistas, de renovação e de alegrias. Quem não se lembra das ruas pelo Brasil afora lotadas de torcedores, formando um manto verde e amarelo da mais pura expressão do amor de nosso povo pelo País, na conquista do Penta? Mas, talvez, o fato mais positivo do ano que está se encerrando seja o notável - mas não inédito - sentimento de esperança nacional brotado das urnas, aliás, outro marco de nosso processo de amadurecimento democrático, com uma transição nunca antes vista.
Sinto-me obrigado, no entanto, a lembrar também dos desafios. Embora avanços incontestáveis tenham ocorrido, muitos deles coroados por reconhecimento internacional, há pendências na área social que teremos inevitavelmente de enfrentar. Basta recorrer a relatório recente, elaborado por organizações não-governamentais, que demonstram uma dura realidade, principalmente no interior: o trabalho escravo nas áreas rurais cresceu dez vezes entre 2000 e 2002. Das 758 terras indígenas estimadas, 66,7% ainda não foram demarcadas. A população rural brasileira caiu de 36 milhões para 27 milhões. E o campo está mais violento: até novembro deste ano, foram assassinadas 33 pessoas, quatro a mais do que em 2001. Existem 550 mil crianças trabalhando como empregados domésticos - a maioria delas no Nordeste (33,15%). Além disso, o nível de desemprego é recorde e há um grande número de pessoas que vivem em condições subumanas, sem falar em outros problemas, como o avanço da violência.
Na área econômica, o balanço do ano é melancólico. O PIB, que fecha 2002 em 1,8% e não passará de 2% em 2003, o que sinaliza mais desemprego para o ano. A inflação, medida pelo IPCA deve cravar cerca de 12% este ano e dificilmente recuará muito no ano que vem. Refém disso, a taxa de juros termina 2002 no patamar de 25%, o que significa, provavelmente, novo arrocho monetário no próximo governo.
Por outro lado, conseguimos avanços relevantes na área legislativa. Este foi o ano em que o Congresso aprovou a regulamentação da Anistia Política, da qual fui relator. Esta medida está permitindo o pagamento de indenizações e a concessão de benefícios a milhares de atingidos pelos regimes de exceção. Tive, também, a oportunidade de negociar diretamente com o Executivo uma solução para as dívidas rurais. E discutimos e votamos inúmeras propostas de interesse nacional, como a medida que restringe a edição de medidas provisórias.
Claro que temos muito que fazer pela frente, mas quero aqui convocar a todos que, de alguma forma, acompanharam o trabalho que desenvolvemos ao longo do ano. Vamos manter acesa esta chama da esperança, pensando nas gerações futuras que merecem receber de nós uma herança à altura de nosso próprio País.
RENAN CALHEIROS é Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça


