2002 já assegurou lugar nos livros que vão estudar nosso passado. Foi um ano de importantes conquistas, de renovação e de alegrias. Quem não se lembra das ruas pelo Brasil afora lotadas de torcedores, formando um manto verde e amarelo da mais pura expressão do amor de nosso povo pelo País, na conquista do Penta? Mas, talvez, o fato mais positivo do ano que está se encerrando seja o notável - mas não inédito - sentimento de esperança nacional brotado das urnas, aliás, outro marco de nosso processo de amadurecimento democrático, com uma transição nunca antes vista.
Sinto-me obrigado, no entanto, a lembrar também dos desafios. Embora avanços incontestáveis tenham ocorrido, muitos deles coroados por reconhecimento internacional, há pendências na área social que teremos inevitavelmente de enfrentar. Basta recorrer a relatório recente, elaborado por organizações não-governamentais, que demonstram uma dura realidade, principalmente no interior: o trabalho escravo nas áreas rurais cresceu dez vezes entre 2000 e 2002. Das 758 terras indígenas estimadas, 66,7% ainda não foram demarcadas. A população rural brasileira caiu de 36 milhões para 27 milhões. E o campo está mais violento: até novembro deste ano, foram assassinadas 33 pessoas, quatro a mais do que em 2001. Existem 550 mil crianças trabalhando como empregados domésticos - a maioria delas no Nordeste (33,15%). Além disso, o nível de desemprego é recorde e há um grande número de pessoas que vivem em condições subumanas, sem falar em outros problemas, como o avanço da violência.
Na área econômica, o balanço do ano é melancólico. O PIB, que fecha 2002 em 1,8% e não passará de 2% em 2003, o que sinaliza mais desemprego para o ano. A inflação, medida pelo IPCA deve cravar cerca de 12% este ano e dificilmente recuará muito no ano que vem. Refém disso, a taxa de juros termina 2002 no patamar de 25%, o que significa, provavelmente, novo arrocho monetário no próximo governo.
Por outro lado, conseguimos avanços relevantes na área legislativa. Este foi o ano em que o Congresso aprovou a regulamentação da Anistia Política, da qual fui relator. Esta medida está permitindo o pagamento de indenizações e a concessão de benefícios a milhares de atingidos pelos regimes de exceção. Tive, também, a oportunidade de negociar diretamente com o Executivo uma solução para as dívidas rurais. E discutimos e votamos inúmeras propostas de interesse nacional, como a medida que restringe a edição de medidas provisórias.
Claro que temos muito que fazer pela frente, mas quero aqui convocar a todos que, de alguma forma, acompanharam o trabalho que desenvolvemos ao longo do ano. Vamos manter acesa esta chama da esperança, pensando nas gerações futuras que merecem receber de nós uma herança à altura de nosso próprio País.
RENAN CALHEIROS é Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça

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