O ano a que estamos sobrevivendo, não terminará em 2020. Na melhor das hipóteses se encerraria em julho e na pior, no final de 2021! Está longe de ser um ano normal, com férias escolares, idas e vindas e várias celebrações tradicionais. Quando no primeiro dia de janeiro, saímos de roupa branca para lhe dar as boas-vindas, não imaginávamos ao que estávamos abrindo as vidas! É uma etapa, um período, uma quarentena, uma epoquê, como o chamavam os gregos e que no português poderia ser traduzido por “parêntesis”. Teve a cor e o cheiro da morte que nos vai perseguir por mais alguns meses, enquanto não estivermos imunizados. Um ano contado pelas horas em casa, pelos abraços que não demos, pelas notícias de hospitais em colapso e pelos caixões enfileirados. Um ano sem fim! Pouca coisa aconteceu além da pandemia e o que pensemos que tenha acontecido a ela está umbilicalmente ligado.

Porém, se a Covid 19 foi a doença do século, o ano que não finda, está longe de ter sido uma fatalidade para os brasileiros. A inépcia inicial com contornos de desprezo pela gravidade da doença, a politização do problema e a atitude negacionista do presidente da República foi a tempestade perfeita, que fez de 2020 um ano para chorar. Chorar pelos milhares de mortos que poderiam estar vivos e chorar, ao ver o nosso país, campeão na eficiência em vacinação, apresentando tardiamente e com “solidez de gelatina”, um plano logístico para a tão desejada vacina. O vírus cresceu entre nós tanto quanto quis e o Brasil diminuiu em razão inversamente proporcional. Foi um ano para esquecer? Não! Defuntos aos milhares, sem velórios, não se olvidam jamais!

Atribuir à Covid 19 a escuridão que cobriu o país é deselegância com o vírus e atribuir-lhe um poder que não possuiu. Países vários lidaram com esta peste, com galhardia, determinação e uma grande dose de humildade, perante a gravidade da doença. E o melhor, abriram o jogo com os cidadãos e tornaram-nos cúmplices das vitórias e fracassos. Em Portugal, o primeiro ministro disse: “agradecemos a todos o esforço gigante para conter o avanço do vírus e por isso não agravaremos as medidas restritivas no Natal. Mas o túnel é longo e difícil.” Realmente, o melhor que um comandante-em-chefe deve fazer nestas horas é ser transparente com os comandados e torná-los corresponsáveis na luta. Sempre funciona. Porém, as trevas sobre o Brasil se impuseram pela mediocridade administrativa, falta de empatia e compaixão, mentira, e a negação e deboche das medidas básicas de proteção, como o uso de máscaras.

2020 foi o ano em que o Brasil dançou com a morte, de rosto colado! O SUS fez o que podia, mas o distanciamento social em raros casos chegou a 60%; ou seja, nunca funcionou direito. O nosso sistema de saúde colapsou! Como uma criança que pula na fogueira tentando desafiar o fogo, assim fizemos, nos expondo sem máscara em festas, baladas e postos de gasolina, levando para casa o vírus, que embora sendo extremamente democrático, afetou mais determinados grupos. Idosos e cidadãos com comorbidade foram parar nas UTIs. Os bares e restaurantes até tentaram cumprir as determinações, mas hordas inteiras de baladeiros permaneceram nas ruas até altas horas, vendendo e consumindo bebidas numa provocação à situação constrangedora de quase falência dos estabelecimentos comerciais! A fiscalização das prefeituras manifestou-se impotente e inócua perante o descalabro geral, principalmente nos últimos dois meses.

Resta-nos a esperança de que neste interminável ano tenham germinado valores e princípios de grande mudança civilizacional. Há controvérsias, mas eu espero que a solidariedade, a confiança na ciência e o desprezo pelos populistas de plantão surjam com intensidade após este pesadelo.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese Londrina

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