Um ano de muita pressão
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segunda-feira, 06 de janeiro de 1997
Gaudêncio Torquato 
O ano político começa, mais uma vez, sob o signo de grandes tensões. As disputas entre PMDB e PFL em torno das presidências do Senado e da Câmara; as velhas-novas suspeitas que pairam sobre a CPI do Orçamento; a lista do BB com os nomes dos deputados do PPB e as desavenças entre o ministro Luiz Carlos Santos e o secretário da Presidência, Eduardo Jorge; as interrogações que se avolumam em direção à emenda da reeleição; as dificuldades que o PSDB está encontrando para demover o deputado Wilson Campos de sua candidatura à presidência da Câmara; e as pressões sobre o presidente FH para que resolva as pendências políticas constituem o caldo que certamente será digerido até meados de janeiro.
Não se pode, a rigor, falar em crise. Pois crise significa deterioração profunda dos elementos que compõem o sistema político, a ponto de gerar ameaça de ruptura entre as instituições. O que está ocorrendo é um processo de desgaste entre partes e vetores do sistema, até compreensível quando se tem em conta que está em jogo a disputa por aumento de poder.
Parte substantiva dos problemas se deve à precariedade com que o Executivo tem administrado as relações com o Legislativo. A personalidade centralizadora do presidente Fernando Henrique Cardoso emperra as negociações, principalmente quando se sabe que ele tende a se afastar dos problemas, em momentos de alta tensão. Ou seja, não resolve nem deixa os outros resolverem.
Falta ao governo uma Casa Civil com o selo político. O modelo de gerenciamento político de FH é repartido entre o ministro Luis Carlos Santos, o secretário Eduardo Jorge, que continua a usar o computador para controlar o loteamento de cargos, e o ministro Clóvis Carvalho, uma espécie de gerente administrativo da estrutura ministerial. A repartição de funções propicia um conjunto de distorções, a partir da duplicidade de serviços. As disputas entre os figurantes, com os naturais ciúmes, abrem um imenso campo de intrigas. Uma densa nuvem de fumaça passa, então, a cobrir os territórios de cada um, empanando a clareza que deve existir no relacionamento entre o Palácio do Planalto e as Casas Legislativas.
Por outro lado, os perfis que se encontram, hoje, administrando os problemas políticos e administrativos não são os mais adequados. Santos não é um político prestigiado por seu próprio partido, o PMDB. Sua personalidade e seu jeito matreiro de fazer política corroem fatias de sua credibilidade. Chega-se a dizer que não é confiável. Ora, confiança é o mínimo que se exige para se fazer coordenação política. Eduardo Jorge, um técnico muito preparado, parece gozar da estrita confiança presidencial, mas é visto pela classe política como um burocrata de gabinete. Clóvis Carvalho, com sua capacidade de organização empresarial, também parece não comprar muito bem a idéia da pressão política. E mesmo no ministério, sua função de controller chega a irritar seus pares.
Há muito que se aponta para a necessidade de o presidente dispor de uma Casa Civil ocupada por uma personalidade de alta expressão política, respeitável e respeitada, que transite pela área política com facilidade. Seria uma espécie de colchão protetor do presidente e confessionário da Presidência. Nomes há de sobra para ocupar esta posição. Possivelmente, tal solução não agrade ao presidente em função da alta visibilidade que o ocupante teria. A tática do dividir para somar parece ser mais do gosto presidencial.
Como 1997 será um ano decisivo, tanto do ponto de vista de matéria econômica quanto sob o aspecto político, será fundamental calçar o Planalto com sapatos mais fortes, sob pena de vermos deteriorar-se o relacionamento entre os Poderes. Está na hora de FH desfazer-se do modelo funcional-burocrático armado pelo amigos de confiança. Mais profissionalismo na coordenação e na operação política - esse parece ser o anseio das bases parlamentares. Que isso seja feito, antes que seja muito tarde.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e analista político.


