Um ano 100% - João José Werzbitzki
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de janeiro de 1998
João José Werzbitzki 
Em lugar algum do mundo, um país pára, como se pára no Brasil, para as festas e final de ano, para o Carnaval, para os feriadões, para a Copa do Mundo ou para quaisquer outros pretextos que proporcionem uma folga geral.
Longe de sermos um país rico e abundante em bem-estar para todos, teimamos em levar uma boa vida de ilhéus do Pacífico, como se pudéssemos viver de coco, banana, palmito, peixe, sombra e água fresca. Totalmente ao deus dará.
Num mundo cada vez mais competitivo, globalizado e exigente, os brasileiros precisam compreender que um ano tem 12 meses para serem trabalhados pelas empresas (com um merecido mês de férias para os funcionários).
O país que só começa a trabalhar depois do Carnaval está jogando fora 2 ou 3 meses de produção e produtividade, de vendas e receitas, de lucro!
Isto é: de 20 a 25% do ano!
Contando os feriadões, os feriados e dias santos (?), a Copa do Mundo, as eleições, e outros motivos para trabalhar menos, corremos o sério risco de jogar fora mais de 50% de 1998. É só fazer as contas...
Os profetas do apocalipse e fracassomaníacos, que previram um péssimo Natal em 97, quebraram a cara, simplesmente porque o mercado reagiu - como tinha que reagir. Isto é: trabalhando, atraindo clientes, facilitando pagamentos, reduzindo preços, realizando promoções, buscando vender.
Só depende de nós mudar esta cultura de quanto mais feriado melhor.
Só depende de nós, como ficou provado neste Natal, virar o jogo, gerar negócios, produção, produtividade, resultados positivos, lucro, mais empregos, melhores salários, maior consumo e assim por diante, no círculo virtuoso do desenvolvimento que todos queremos para o nosso País e para o nosso mercado.
Mas, para isso, é preciso trabalhar. Trabalhar mais e mais, cada vez mais, com maior dedicação e perfeição.
Há décadas, nos Estados Unidos, o Christmas Sales é uma festa para o varejo, numa megaliquidação que se desenvolve entre o Natal e o Ano Novo, com descontos de até 50% em todas as mercadorias. É uma senhora desova de estoques. É um volume de compras e vendas fantástico. É dinheiro no caixa. É trabalho duro, das 10 às 22 horas, entre o Natal e o Ano Novo, para milhares de pessoas... enquanto aqui, nos trópicos, nos contentamos em lagartear ao sol, beber cerveja e tomar banho em águas poluídas. Afinal, estamos de férias coletivas. O Brasil está de férias... como se merecesse estas férias. Tadinho.
Este Brasil e estes brasileiros precisam acordar para a realidade deste novo mundo - ou seremos todos engolidos. A evolução nunca foi tão rápida e precisamos estar atentos para isso. Os concorrentes, internos e externos, estão ficando mais espertos, ágeis e competentes - enquanto nós tomamos caipirinha na praia.
Os consumidores também estão ficando mais exigentes, criteriosos e estão dando cada vez mais valor ao seu rico dinheirinho. Atraí-los, persuadi-los e fazê-los comprar está ficando cada vez mais complexo, não porque tenhamos perdido todas as nossas qualidades, mas porque a concorrência está ficando mais sedutora e atraente, em constante processo de aprimoramento para encantar aqueles clientes que um dia se contentavam com pouco - só preço, sem ar condicionado, sem mordomias, sem facilidades de pagamento, sem bom atendimento, sem fidelização, sem paparicação total e irrestrita.
Nem seria preciso repetir, mas vou: pense em quantas marcas famosas e líderes de mercado desapareceram nos últimos 5 ou 10 anos. Pense em quantas marcas importantes estão em grandes dificuldades, por pura falta de evolução. Pense na sua empresa, na sua vida, na sua profissão, no seu mercado, na sua família, na sua casa... quanta coisa mudou nos últimos anos? Uma enormidade.
Por isso, precisamos é abrir os olhos, para recuperarmos o tempo perdido (ainda dá tempo?), arrregaçarmos as mangas e nos dedicarmos a ser mais produtivos, mais eficientes, mais ágeis o tempo todo. O ano todo.
Nenhuma economia do planeta pode se dar ao luxo de perder tempo, quanto mais 20, 30, 40, 50% do ano em folguedos irresponsáveis, no mínimo. É claro que todos merecemos férias! Mas não podemos sair todos de férias ao mesmo tempo! Não parece lógico? Parece, mas no Brasil é assim mesmo: paramos todos, ao mesmo tempo.
E quando não é por férias coletivas nacionais, é por um pânico idiota provocado por despreparados que fazem comentários imbecis, veiculam estes comentários e ainda agregam mais um pouco de fim de mundo, e lêem este amontoado de non-sense e comentam como se tivessem lido, visto e ouvido um guru ou E.T. de sabedoria sem fim. E isso tem criado crises desnecessárias, como a que vivemos neste final de 97,
Está provado: o que nós precisamos é de mais trabalho, de busca de informação e tecnologia, de dedicação e desejo de melhoria, de agilidade e competência, de profissionalismo e seriedade. Só isso - com menos férias.
Trabalho, de verdade, em todos os meses do ano, ano após ano, para transformarmos este país, que é uma eterna promessa de futuro, num futuro melhor para todos nós.
Precisamos, de verdade, de um ano 100%.
Feliz Ano Todo!


