Um alento na cidadania - Miguel Ignatios
Um alento na cidadania
As recentes cassações dos mandatos do ex-vereador Vicente Viscome e do ex-deputado Hanna Garib pela Câmara Municipal de São Paulo e pela Assembléia Legislativa do Estado, respectivamente, constituem um alento no processo de gradual tomada de consciência da cidadania por parte da sociedade civil brasileira. Após o afastamento do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em 1992, em consequência do impeachment aprovado pela Câmara dos Deputados, houve um período de calmaria, durante o qual a opinião pública acostumou-se à idéia de que nem sempre, necessariamente, as coisas no Brasil têm de terminar em pizza. O choque foi grande, mas valeu a pena.
Pela primeira vez, em mais de cem anos de história republicana, um presidente da República era obrigado a renunciar ao cargo. Houve, antes, é claro, o obscuro episódio da renúncia de Jânio Quadros, em 1961. E - o mais surpreendente - a saída de Collor não aconteceu em decorrência de um golpe de Estado, infelizmente, uma lamentável herança na história republicana da América Latina. Não é fácil, de repente, em plena cultura da impunidade, o cidadão sentir-se co-responsável pela saída de um presidente da República.
Foram necessários mais sete anos para que a maré alta da cidadania viesse bater no Palácio Anchieta e no Ibirapuera, em São Paulo, onde fica a Assembléia Legislativa. Antes disso, porém, houve algumas cassações de deputados federais graças à iniciativa da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.
As cassações de Vicente Viscome e de Hanna Garib devem ser entendidas pela opinião pública como a continuação de um processo, iniciado em 1992, com o impeachment de Collor e que, tenho certeza, deverá continuar crescendo até o cidadão brasileiro alcançar a consciência plena de que ele pode, sim, daqui para frente, tornar-se dono do seu próprio destino e agente da história e não mais, como tem sido até agora, um mero espectador.
Sempre, é claro, haverá os eternos descrentes, os céticos e os cínicos. Para eles, a cassação de Viscome e de Garib (e talvez a de mais uns dois ou três vereadores) não passa de manobra sórdida. A lógica defendida por eles é simples: vão-se os anéis mas ficam os dedos. Em outras palavras, cortam-se as cabeças de meia dúzia de bodes expiatórios para que tudo continue a ser como era antes e sempre foi. Talvez eles não estejam totalmente equivocados.
Pessoalmente, todavia, prefiro acreditar que aqueles maus vereadores ou maus deputados que sobreviverem à atual maré de cidadania não escaparão da cassação definitiva das urnas. As próximas eleições, no ano que vem, para renovar as Câmaras Municipais; e, em 2002, para as Assembléias estaduais, a Câmara dos Deputados e parte do Senado, serão uma ocasião excepcional para que o eleitor exercite a sua cidadania e comece a varrer do mapa eleitoral do País a corrupção endêmica, filha bastarda da cultura autoritária e antidemocrática.
O País, felizmente, está avançando. Meio aos trancos e barrancos, é verdade. Mas está aprendendo, na prática, a construir a democracia.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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