Último tango
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2001
Márcio Coimbra 
O encanto de Buenos Aires foi encoberto pelos confrontos entre populares e a polícia. O agora ex-presidente Fernando De La Rúa permaneceu sitiado na Casa Rosada. O povo argentino transformou, mais uma vez, a Praça de Maio no ponto nevrálgico das manifestações. As adjacências da sede do governo argentino estavam tomadas pelo confronto. Os saques eram constantes, entre outras, nas charmosas ruas Florida, Corrientes e Tucumán. Impassível, o obelisco da imponente Avenida 9 de Julho assistia o caos em todos os bairros portenhos. Tudo isso acontecia enquanto a Argentina vivia na exceção do ''Estado de Sítio''.
Durante a campanha presidencial de 1999, um cartaz, em frente ao Teatro Colón, dizia ''De la Rúa: Presidente Seguro''. Os tempos mudaram e o vencedor daquele pleito perdeu a autoridade quando suas determinações não foram aceitas pela população, que tomou as ruas das principais cidades da Argentina em protesto.
Como se a tormenta sobre seu governo não fosse suficiente, De La Rúa recebeu, na madrugada de quinta-feira, 22 de dezembro, a renúncia de todo seu gabinete. No mesmo dia, o ex-condutor da economia, Domingo Cavallo, foi proibido de deixar o país, o Congresso fechou as portas e os serviços de trens e metrôs foram suspensos. Em meio à turbulência, a Casa Rosada ainda procurou os líderes do Congresso Nacional, dominado pelo Partido Justicialista (peronista), com vistas a formar um governo de coalizão. Ocorreu o esperado: os peronistas não forneceram o apoio político que o presidente precisava. De La Rúa, entrincheirado na sede do governo, não teve outra alternativa senão a renúncia.
Durante horas, diferentes governos do mundo torceram para que a solução encontrada não fosse a quebra das regras democráticas, que rasgariam a constituição e poderiam levar a Argentina para o regime de exceção. Tudo indica que os irmãos platinos preferiram a solução democrática e constitucional, o que demonstra a maturidade do povo e de seus líderes, mesmo abalados durante esta forte crise. É, neste ponto, sem dúvida, uma lição de democracia para outros países latinos.
A queda de Fernando de La Rúa é mais uma dura derrota para seu partido, a União Cívica Radical. A UCR já teve 10 diferentes presidentes no comando do país, contudo, somente três deles conseguiram cumprir integralmente o seu mandato. Com o mais recente presidente eleito, não foi diferente.
Para o futuro, a Argentina tem várias opções para disputar a próxima eleição, principalmente no partido de oposição, o justicialista. Candidatíssimo, Carlos Menem encabeça a lista. Entre os peronistas, porém, existem outros interessados em ocupar a vaga deixada na Casa Rosada, desde os governadores de Córdoba e Santa Fé, José Manuel de la Sotta e o ex-piloto Carlos Reutmann, até Eduardo Duhalde, senador, derrotado nas eleições de 1999 por De La Rúa. Ainda aparecem como opções Carlos ''Chaco'' Alvarez, da Frepaso (Frente País Solidário) antigo vice que renunciou e Angel Rozas, da desgastada UCR.
Nosso vizinho vive uma crise econômica estrutural. O desgaste na economia veio de mãos dadas com o perigoso fascínio pelo populismo. A paridade já não existe, pois o povo não confia na capacidade de o Estado manter a equivalência entre peso e dólar. Se o próximo governo insistir na paridade, o problema estrutural continuará, pois a indústria nacional perderá competitividade, o que culminará com novas demissões e aumento do desemprego.
O fim da paridade e a retomada de uma política monetária própria é essencial para a recuperação do país. A ineficiência e o esgotamento do plano de paridade é claro. A Argentina precisa de um governo que articule a estabilidade e o retorno ao crescimento baseado em políticas fiscais e monetárias austeras e realistas. O problema estrutural precisa ser resolvido. Desta forma, os tangos da pujante Argentina do passado, antes do populismo de Perón, poderão ser dançados novamente, sem a melancolia do último tango conduzido por De la Rúa.
MÁRCIO COIMBRA é especialista em Direito Internacional


