Enquanto vivermos, sempre haverá um bom motivo para mais um discurso. Os profetas deste tempo atual têm dito que vivemos uma crise de paradigmas, crise civilizacional, crise de visão de mundo, o que torna este mundo, nesta passagem de milênio, uma figura de difícil compreensão. É neste contexto que emergem inúmeras questões, algumas antigas, outras nem tanto, que talvez não pensássemos que estaríamos discutindo no século XXI, que está abrindo suas portas. ‘‘O futuro é, em grande medida, imprevisível. Quando falamos dele, no fundo, estamos falando do presente, o que poderia vir a ser o futuro’’, diz Ciro Flamarion Cardoso. E é por isso que, não raras vezes, enganamo-nos.
As novas ‘‘verdades’’ globais interferem profundamente em nosso mundo local. Pode-se perceber isso em toda a parte. O sintoma mais comum é a pressa. Pressa que esconde a perversidade, dificulta a distinção entre o que é superficial e essencial e nos prega peças quando faz a qualidade se dobrar à quantidade. A pressa nos levou a situações como a ficar, pacientemente, incontáveis minutos ao telefone, escutando aquela voz: ‘‘Nossos operadores continuam ocupados, aguarde mais um momento.’’
Cada dia é dia de uma nova escassez, que nos é mostrada para provocar o apetite e nos criar perplexidades, que achamos que será superada se andarmos mais depressa. A necessidade da velocidade, aliada à técnica, é o grande discurso desse final de milênio. Nem sempre é fácil explicar para que serve. Serve para salvar vidas, diriam uns. Para levar à morte, diriam outros. Há quem acredite que dá para ganhar mais dinheiro. Ela nos deixa ora aparentemente em vantagem, porém não raras vezes nos suplanta.
Na história protagonizada por Charles Chaplin no filme ‘‘O Grande Ditador’’, e que começa a ser contada do final dos anos 10 em diante, aparece a seguinte mensagem: ‘‘Esta é a história de um período entre duas guerras, durante o qual a loucura imperava, a liberdade desapareceu e a humanidade foi chutada não se sabe para onde. Qualquer semelhança com o nosso tempo não é mera semelhança.’’
Ao final desta história, o personagem pronuncia o ‘‘Último Discurso’’, metáfora que ajuda na compreensão do nosso tempo, na medida em que nos indica alguns caminhos: ‘‘Gostaria de ajudar, se possível, judeus, gentios, negros, brancos... Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para seu infortúnio. Por que haveremos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens. (...) Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.(...) Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos, nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas feições a vida será só violência e tudo será perdido.. (...) Lutemos por um mundo novo... Um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. (...) um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.’’
Porém, não é isso que vemos. As ações gananciosas desencadeadas pelo domínio da técnica atingem hoje, de forma mais eficiente, as pessoas. Os indicadores econômicos mostram que o PIB mundial está crescendo à medida que, paradoxalmente, também cresce a pobreza. O homem, na sua universalidade, poderia ter aprendido melhor as lições passadas e construir, a partir dali, ferramentas úteis para lidar com as inquietações da contemporaneidade. Diante disso e aproveitando este início de século, poderíamos pensar na criação de um índice que meça o grau de felicidade das pessoas. Acredito que isto daria um bom alento para algumas questões aparentemente insolúveis.
É por isso que o discurso do Chaplin poderia encerrar em grande estilo este milênio. Se alguém tiver uma idéia melhor, por favor...
- TARCÍSIO VANDERLINDE é professor universitário em Cascavel

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