UEL não é ''lugar de privilegiados''
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de fevereiro de 2003
Lygia Pupatto 
Os dados do perfil do aluno da Universidade Estadual de Londrina (UEL), publicados recentemente, não nos surpreendem. Eles reforçam a idéia de ser a universidade um lugar que abriga uma população discente heterogênea quanto aos valores, os objetivos e as condições materiais de existência. A composição social discente é representativa da sociedade.
Qualquer leitura que ignore a diversidade dessa realidade para enfatizar algumas particularidades próprias desta e de qualquer comunidade universitária, fatalmente incorrerá em imprecisão. Levar em conta a universidade como um todo, sem reduzi-la a qualquer dos seus aspectos, a começar pelo perfil dos alunos, não é apenas desejável, mas necessário se queremos pensar a universidade para uma sociedade mais justa.
Seria inadequado se ignorássemos que há um contingente significativo de alunos cujas condições materiais de vida são as melhores em se pensando num país que elege como prioridade política de governo a ''Fome Zero''. Mas igualmente seria impróprio se generalizássemos essas saudáveis condições para toda a comunidade universitária.
Os dados do perfil nos revelam, por exemplo, que um grande contingente dos alunos que ingressaram na UEL em 2001 e 2002, são originários da escola pública: 36,34% do geral e 56,70% nos cursos noturnos fizeram o 2º grau na escola pública. São 46,05% no geral, os estudantes que fizeram o ensino fundamental integralmente na escola pública, mas 11,85% que o fizeram em parte.
Os dados também mostram que próximo de 30% dos alunos pertencem a famílias cuja renda mensal não ultrapassa R$ 1.000,00, e isso equivale a um contingente de perto de 4.000 alunos. Também nos revelam que 38% dos discentes terão que trabalhar durante o curso, bem como que 48% não têm computador com acesso à internet.
São dados nada desprezíveis para uma instituição de 13.300 alunos de graduação que ainda é pensada por muitos como ''lugar de privilegiados''.
Se nos ativéssemos a considerações sobre os dados sócio-econômicos, que dizem respeito ao todo da universidade, já seria suficiente para deixar claro que a realidade do corpo discente da UEL é marcada por situações muito distintas; e se voltássemos nossa atenção para o perfil dos alunos concentrados nas áreas de estudos: biológicas, exatas e humanas, ou nos períodos matutino, vespertino, noturno e integral, mais ainda a heterogeneidade que caracteriza a população discente do campus ficaria evidenciada.
Da mesma forma, os dados referentes às características educacionais e culturais dos alunos são reveladores das diferenças e identidades presentes no corpo discente. O fato de 54% dos alunos terem como principal expectativa com relação ao curso universitário a formação para o mercado de trabalho não esconde o fato de outros 34% terem como preocupação o desenvolvimento cultural, a melhoria do nível de instrução ou a qualificação para melhor entenderem o mundo em que vivem.
Essa riqueza de informações que nos chegam com o perfil dos nossos alunos não é senão reflexo da sociedade desigual e diferente em que vivemos e da qual a universidade é parte constitutiva. A ela cabe, no primeiro caso, produzir e disseminar conhecimentos, interagir com a sociedade, bem como formar profissionais que possam construir alternativas às desigualdades. E, no segundo, sem jamais abdicar do compromisso com o desenvolvimento e a justiça social, lutar para que as diferenças não sejam motivos para qualquer tipo de constrangimento e que a partir delas possamos construir uma sociedade cujo espaço seja comum a todos.
As questões que nos parecem pertinentes de serem colocadas a partir do conhecimento do perfil dos nossos alunos não é a de distingui-los como parte de uma elite a quem apenas se reconhece gozar de privilégios numa sociedade marcada por desigualdades, mas, o de percebê-los como agentes de mudança, como potenciais portadores de futuro de uma sociedade que se quer melhor.
Este nos parece ser o real compromisso da universidade. Estar sensível à dinâmica social, permeável aos seus conflitos, portanto, um espaço de inclusão e não de exclusão social.
LYGIA PUPATTO é reitora da Universidade Estadual de Londrina


