A Universidade Estadual de Londrina enfrenta uma de suas piores crises. A greve de professores e funcionários gera um ambiente de incertezas e angústias, interrompe o processo de qualificação profissional e, no caso específico da saúde pública, empurra a população de Londrina e região para o atendimento precário em hospitais superlotados.
Estas são apenas algumas das consequências imediatas provocadas pelo sucateamento da universidade pública e principalmente pelos baixos salários daqueles que hoje atuam na UEL. A insatisfação é geral e não há como sair desta crise sem que se abra um canal de comunicação permanente para a avaliação de propostas concretas entre representantes do movimento e governo do Estado, este último responsável direto pelo repasse de recursos à UEL.
Conversar, neste momento, não basta. Paralelamente à manifestação do governo estadual de realizar novas audiências com representantes de professores e funcionários, o movimento quer receber e analisar propostas concretas de reposição salarial e repasse de recursos para a melhoria da infra-estrutura universitária. A queda de braço, baseada na lei do mais forte, vai aumentar o sofrimento e o desgaste de todos os envolvidos.
Hoje, depois de trinta dias parados e tendo parte dos salários descontados, muitos servidores precisam recorrer às cestas básicas doadas pela população para manter o sustento de suas famílias. Boa parte deixou de pagar suas contas de água, luz, telefone, escola e supermercado. Diante deste quadro, a humilhação e a revolta se misturam e se tornam terreno fértil para que a crise se alastre e deixe marcas profundas.
É imprescindível a solidariedade de outros segmentos da sociedade. Acredito que a mobilização da UEL possa contar com a compreensão e o apoio de ex-dirigentes, atuais e ex-alunos, ex-professores, profissionais liberais que se formaram no bancos da UEL, pois se trata de um movimento justo que nasceu dentro da maior estrutura pública do interior do Estado.
Quando a UEL pára, significa dizer que mais de 1,6 mil professores cessam o processo de pesquisa, de ensino e de extensão; cerca de 4 mil funcionários (dos quais 45% lotados no Hospital Universitário) deixam de atuar no HU, no Hospital Veterinário, no Hospital das Clínicas, na Clínica Odontológica, na Fazenda-Escola em tantas outras atividades de extensão à comunidade que se tornaram serviços imprescindíveis ao bem-estar da população.
E por que a UEL pára? Porque um professor auxiliar 1, com a responsabilidade de promover e contribuir para a graduação de médicos, engenheiros, advogados - são 38 cursos de graduação - está recebendo hoje um salário médio de R$ 760 mensais. O salário inicial compromete o plano de carreiras e inibe o aperfeiçoamento de professores. Por outro lado, os salários dos servidores estão congelados desde agosto de 1995, portanto há seis anos, e defasados em 50%.
Diante de salários não condizentes com a função de educar, como atender a uma demanda cada dia mais crescente de profissionalização da sociedade? Como investir no aperfeiçoamento profissional de cerca de 13 mil alunos de graduação e pós-graduação se a remuneração de professores e funcionários, na maioria das vezes, não respeita o piso salarial que o mercado paga para cada uma das profissões? Um país como o nosso, que tem a necessidade premente de qualificar a sua população, não pode relegar o ensino universitário e público para segundo plano.
O acirramento da crise provoca ainda outro efeito devastador, difícil de ser reparado. Empurra para a iniciativa privada profissionais capacitados, formados com o investimento do próprio Poder Público. Anos a fio de pesquisa e de estudos que resultam em conhecimento de ponta, são rapidamente transferidos para segmentos nacionais e internacionais que oferecem segurança e respeito aos nossos profissionais.
Ao abrirmos mão de conhecimento, ignoramos a função das universidades e vamos transformando, aos poucos, a graduação numa ação efêmera que oferece o diploma mas não desperta para a verdadeira descoberta da ciência, da tecnologia enfim, do conhecimento. Por isso, mais que portas abertas, a UEL, ao lado de outras instituições públicas de ensino, precisa participar do processo de definição do orçamento das universidades estaduais. Somente desta forma, as promessas de dias melhores se transformarão em propostas concretas de valorização de professores e funcionários, com reflexos diretos sobre a formação de profissionais e o bem-estar da população.
- TERCÍLIO TURINI, vereador e presidente da Câmara de Londrina, é médico e professor do Hospital Universitário

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