UEL já precisou 'importar' cadáveres
No final dos anos 80, um ''desembarque'' passou despercebido pelo campus da UEL. De um utilitário, saíram dez corpos, logo alojados no Departamento de Anatomia. Eles haviam feito uma insólita viagem de 530 quilômetros.
Embora praticamente ignorado pela comunidade universitária, o fato significava um triunfo da instituição, em especial do curso de Medicina, contra a escassez de cadáveres, problema que pode comprometer a qualidade de ensino e aprendizado, segundo os próprios professores.
A ''importação coletiva'' é um exemplo extremo, mas revela a dificuldade de se conseguir um corpo inteiro para estudos no Brasil. Na ocasião, a UEL foi salva pela boa vontade da Escola Paulista de Medicina, que contava com uma oferta excepcionalmente numerosa.''A necessidade por novos corpos é permanente e cada vez maior'', atesta o chefe do Departamento de Anatomia, Juarez Cezar.
A pequena história de uma década e meia atrás não se repetiria na realidade atual. De acordo com Cezar, a demanda por corpos tem aumentado contínua e rapidamente. A explicação é simples: nos últimos 15 anos, também aumentou o número de faculdades e de cursos técnicos na área biológica. Oferta abundante virou coisa do passado nos laboratórios de anatomia.
A disputa por corpos motivou a idéia do funcionamento de uma central estadual de distribuição. Em 1999, foi criada a Comissão de Distribuição de Cadáver para Estudo e Pesquisa. A comissão tem o objetivo de ordenar a lista de espera por corpos não-reclamados em todo o Estado.
Fazem parte da iniciativa 16 instituições de ensino superior de todas as regiões do Paraná. Segundo o professor e médico José Geraldo Calomeno, chefe do Departamento de Anatomia do Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente transitório da comissão, desde que a ''fila'' foi organizada já foram distribuídos de 20 a 30 corpos. Os processos de doação são acompanhados pelo Ministério Público.
Calomeno admite que a espera pode ser longa de até seis meses e que a oferta de corpos é sazonal. ''Já ficamos um bom período sem conseguir nada e já tivemos semana com seis doações'', explica.
A demora, explicada pelo presidente da comissão ''como uma consequência da falta de serviços de verificação de óbitos pelo interior'', já foi motivo de sérios desfalques na lista. Entre as 16 instituições associadas, não estão as duas maiores universidades públicas do interior a UEL e a Universidade Estadual de Maringá (UEM).
As duas universidades obtiveram meios próprios para conseguir os cadáveres. A UEL tem privilégios junto ao IML de Londrina, que não lhe ''nega'' prioridade. Para Calomeno, estar na comissão é um exercício de paciência. ''As instituições que integram o rodízio encontraram uma forma ética de distribuir os corpos''. O representante da UFPR lembrou que, às vezes, ''as universidades fazem muita pressão e isso causou alguns problemas'', mas disse respeitar a posição das UEL e UEM. ''Cada instituição conhece sua realidade'', afirmou, escapando da polêmica.(L.F.M.)





