UEL, a grande vencedora - Irã Dudeque
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 1997
Irã Dudeque 
A exposição dos trabalhos inscritos e premiados no 6º Concurso de Idéias Frederico Kirchgassner, que ficou aberta durante o mês de outubro, no Museu da PUC-PR, serve para avaliar a quantas anda a criatividade dos aprendizes de arquitetura do Estado do Paraná, neste momento em que os arquitetos não se cansam de repetir que a arquitetura - e várias outras artes - estão chafurdando na crise. O tema deste ano foi O Museu da Arquitetura do Século XX. O Concurso de Idéias Frederico Kirchgassner é promovido pelo Círculo de Estudos Bandeirantes da PUC PR. É o único concurso do gênero no Brasil. Podem participar estudantes de todos os períodos dos cursos de arquitetura do Paraná (PUC, UFPR, UEL, CESULON). Ou seja, alunos do 5º ano ao lado de alunos do 2º ano.
E nesse ano o que mais chamou a atenção foi a participação dos estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que estouraram a banca. Dos quatro trabalhos premiados, três foram da UEL. Para começar, o júri discutiu, discutiu, mas não conseguiu criar um critério de desempate para determinar o terceiro e o quarto colocados. Decidiu, então, apontar dois trabalhos como terceiros colocados. Os dois trabalhos eram da UEL. O trabalho segundo colocado foi criado por um estudante da UFPR. De quebra, o primeiro colocado também foi da UEL. Mas o pasmo maior foi descobrir, após a abertura dos envelopes que permaneciam lacrados, que os vencedores eram alunas do 2º ano. Alunas do 2º ano! Evelise Chaiben, Ana Paula Machado e Thaís Gonçalves, autoras do projeto Museu de Arquitetura de São Paulo.
No ano de 1996, outras três estudantes da UEL, também do 2º ano, estavam entre as premiadas. Karen Koutaka, Lara Cristina Torres, Vany K. Kanabushi tiraram o segundo lugar apresentando um projeto de uma casa para o arquiteto japonês Tadao Ando que foi o projeto mais radical apresentado em todas as versões do Concurso de Idéias. Levava a arquitetura a uma tal síntese que, se um elemento qualquer fosse tirado da composição, a arquitetura acabava. Neste ano de 1997 a dose se repetiu. Foi a simplicidade do Museu que o destacou.
Simples não quer dizer simplório. Os momentos supremos da história da arquitetura brasileira foram a simplicidade de um sujeito como Oscar Niemeyer. Tente, caro leitor, desenhar de cabeça o prédio do Congresso Nacional em Brasília. Uma linha horizontal, duas linhas verticais, uma curva para cima e outra para baixo. Cinco elementos bastaram para fazer um dos edifícios mais bonitos do mundo. Cinco elementos. Gravando nos Estados Unidos, Tom Jobim tocou 3 (três!) acordes nos três minutos de Doralice. Tom Jobim era amigo de Niemeyer.
O diabo é que, hoje, simplicidade é uma palavra que anda meio esquecida pelos arquitetos. É só ir em uma dessas malditas exposições de decoração para entender isso. Qualquer projeto é feito de camadas e camadas de luxo, numa ostentação sempre insuportável. Em todos os trabalhos premiados criados pelos estudantes da UEL, o espírito de Tom e Niemeyer é emulado. Não há adornos, não há jogos espalhafatosos de forma, não há distrações, não há o desejo histérico de aparecer. Além disso, as apresentações foram limpas, enxutas, sem recursos gráficos mirabolantes. Percebe-se, assim, nos trabalhos da UEL, a compreensão de como produzir uma arte válida em um país pobre. Ou seja, apenas maior problema estético de nosso país hoje e em toda a sua história. A coroação de tudo isso foi o primeiro prêmio. No meio dos arquinhos, das coluninhas, dos desejinhos de aparecer, dos telhadinhos e outras cretinices que infestam a arquitetura hoje, é bom saber que alunas de 2º ano têm propostas claras e sem frescuras.
Parabéns ao Curso de Arquitetura e Urbanismo da UEL, parabéns ao professor Manfreide Martinez que, pelo que fiquei sabendo, orientou todos os trabalhos premiados, e parabéns à Evelise, Ana Paula e Thaís. O prêmio delas pelo primeiro lugar foi uma viagem para Buenos Aires. Vão em março. Não sejam mal-educadas, meninas, e mandem postais!
P.S: Se der, enterrem algum sapo numa praça portenha. Sabem como é, Copa do Mundo chegando, qualquer ajuda vale para complicar a vida do Pasarella...
- IRÃ DUDEQUE, historiador (UFPR), arquiteto (PUC PR), mestrando da FAUUSP e organizador do Concurso de Idéias Frederico Kirchgassner


